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- Luft, Lya. O silêncio dos amantes. Rio de Janeiro: Record, 2008.

'O silêncio dos amantes' é um livro que atrai e silencia.
Ele faz ressurgir os medos mais profundos, os desesperos onde esquecemos de remexer.
Não trata só da incomunicabilidade entre as pessoas que se amam, mas de suas incompatibilidades, suas quietudes de tristeza, de suas diversas freqüências, fala de vidas que insistem em se distanciar pela mágoa, pela incompreensão, por dores desumanas e involuntárias que são obrigadas a suportar.

Para sobreviver, tentamos esquecer muita coisa, vamos guardando tudo embaixo do tapete, medos, culpas, frustrações, abandonos, como na história engraçada do querido mestre Affonso Romano de Sant'Anna, onde o rei esconde tudo que é coisa suja, feia e ruim debaixo de um tapete palaciano, até que começa a tropeçar nele e, a despeito disso, continua ignorando tudo, até o dia em que não consiga mais caminhar.

Em suas histórias, Lya ensina que é preciso observar e sentir, acima de tudo, o outro e a si mesmo. E é preciso falar o que deve ser dito, que é preciso buscar o mar revolto para agitar nossa própria placidez fingida.

'O silêncio dos amantes' é composto de 20 contos, todos eles cortantes e doloridos. Não há finais felizes, há finais surpreendentes, bonitos ou tristes, sutis e possíveis. Para isso, a autora utiliza, com total domínio e maestria, recursos sensoriais e fantásticos numa ficção que envolve pela delicadeza, pela sensibilidade a detalhes, cheiros, reparos que refogem à maioria.

Há algumas histórias que coincidem quase exatas com nossas próprias memórias, portas que guardam múmias e segredos, casas com jardins e cemitérios de animais, onde madeiras sussurram, onde o fundo de piscinas chama para nunca mais, camas que guardam um escuro de onde podem sair mãos e botões e, enquanto costura sua narrativa complexa e detalhada, cheia de imagens de infância e dos relacionamentos difíceis que se tecem em cada lar, Lya ressucita culpas e fantasmas, reencontra medos da juventude e da velhice, reabre portas lacradas, mostrando tudo o que vamos escondendo em quartos escuros, tão escuros que poderiam sugar todo o sol e assim, preferimos deixar essas portas fechadas enquanto nos for possível.

Os contos assombram, inquietam e avisam que, nem sempre, o silêncio é de ouro, pode ser de sangue, e pode nos macular, nos marcar para sempre.
São um alerta duplo: servem para quem se omite e para quem prefere esconder a dor até que passe. As histórias gritam: essa pode ser a sua única, a sua última chance! Ficará em seu colo o resultado do que fará com ela...

O que é pior? O arrependimento do que foi feito, ou o arrependimento do que foi omitido? O que temos feito com quem amamos? Qual das culpas levaremos para o leito de morte? O que precisamos fazer para evitar tanto mal?

A felicidade é fugaz, seu equilíbrio, contudo, é frágil demais, depende de nós, dos que estão ao nosso lado, e também de muitas outras coisas que nos fogem ao domínio. Mas, e essa ínfima parcela de felicidade que depende de nós? O que faremos com ela?

Lya Luft ensina, através das inquietações, dores e erros de seus tantos personagens, o que podemos fazer para nadar a salvo em meio a tantas ondulações tempestuosas. Em sua própria voz, devemos aprender a não apenas 'precisar de amparo e consolo, mas também enxergar, abaixo da superfície e atrás das paredes, novas possibilidades de viver e se relacionar.' e explica que há situações em que o conforto tem um tempo certo para acontecer, o conforto tardio pode perder a razão. Oportunidades perdidas não voltarão para nos resgatar.

'O silêncio dos amantes' é um livro que cala, questiona e ensina a salvar.