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Dando um rolé pelo Mundo...
- MundoMundano e os quatro cantos do mundo. Camila Briganti [et al.]. São Paulo: Selo Prólogo e Instituto Mundo Mundano, 2010.
É de conhecimento corrente, no meio literário, que a resenha deve ser feita do modo mais imparcial possível. Então, resenhar um livro para o qual se concorreu com alguma colaboração literária, NEVER.
Foi por esse motivo, aliás, que não resenhei a Antologia Cidade, outra incursão minha em projetos alheios que acabam me seduzindo, seja pela ideia em si, seja pela paixão do idealizador.
Mas não podia deixar de tentar com o livro "Mundo Mundano e os quatro cantos do mundo", um dos primeiros filhotes da Revista Mundo Mundano e do Instituto Mundo Mundano. Afinal, além de mim, era tanta coisa que valia à pena ser referida...
Pois é, eu tenho, SIM, texto publicado na coletânea. Com muito orgulho. Dois, para ser bastante sincera. E mais, não paguei nem três dinheiros por isso! Mas não falarei deles para não soar terrivelmente malvada e cabotina.
Para contar a história desde o início, tudo decorreu de um (feliz) encontro entre o boletim Leituras e a editora do site-livro-revista-instituto, a Camila Briganti. O deslumbramento foi tão grande, que eu entrei na hora para o grupo da Revista, e ela abriu na hora o prazo da gráfica para mandar rodar meus textos, e a conversa continua, depois da festa, depois de tudo.
Eu sabia que, ao me empenhar em elaborar uma resenha do livro, correria um risco grande de encontrar textos péssimos, e consequentemente ter que desmontar jovens autores ou, pior, me omitir em publicar a resenha do livro coletivo. E assim andei com esse livro na minha bolsa por uns bons meses. Até tomar coragem. Até descobrir que precisaria 'ignorar' que havia um texto meu ali, e pegar firme.
Felizmente, tudo se saiu melhor que a encomenda.
A ilustração de uma orelha na orelha do livro já adiantava a irreverência que eu encontraria por dentro. Claro que há certas irreverências sem graça - e essas são o pior tipo de irreverência possível. Mas não foi o caso. Que bom!
Camila Briganti e seus 55 mundanos no geral acertam a mão. Uns mais, outros menos. Como sempre ocorre em qualquer coletânea, mesmo nas individuais.
O tom do livro é o 'ser mundano', o 'sentir-se mundano'. Livre de territórios e limites. Livre de convenções ou regras ou tabus ou camisas-de-força. Livre para escrever o que der na telha. Livre para compartilhar.
Senti falta de uma apresentação do livro nesse sentido, para o leitor mais desavisado. Para quem quiser saber exatamente do que falamos, o conceito da revista está online e serve bem para se ter uma ideia geral da obra. No entanto, reparo que até nisso Camila Briganti ousou, deixando o leitor sentir-se igualmente mundano - em pé de igualdade com os escritores, ilustradores e fotógrafos - entrando totalmente nas sensações da contemplação e da leitura.
As ilustrações de Fábio Martinez são bacanas e a citação bíblica (É inútil ensinar o imbecil) no início do livro faz refletir: fiquei meio sem saber se soava presunçosa, irreverente (daquela irreverência sem-graça), ou se servia para trazer os escritores ao nível dos refratários aos ensinamentos. Enfim, talvez se ela estivesse lá para o miolo do livro, ficasse melhor colocada, ou pelo menos dialogaria melhor com os textos.
O início do livro parece um tanto fora de lugar, como se começasse pelo clímax, como se acenasse bastante para chamar a atenção, mas (felizmente) ele vai pegando prumo e consistência à medida que as páginas são viradas.
As mulheres de Lui e as fotografias (maravilhosas!) de Mauricio Eça, Mateus Silva, Rodrigo Richter, Fernando Ricci e Paulo Cunha trazem uma leveza inigualável ao texto. Entremeiam leitura com o sentimento que emerge da imagem, transformando essa literatura pan-contemporânea numa experiência visual, integral, quase uma conversa de fim de tarde com aquelas histórias estranhas e meio non-sense que uma tia distante poderia ter contado.
Em 'A maleta do meu pai', Camila basicamente explica o que a motivou na empreitada da Revista/Instituto Mundo Mundano. Um projeto essencialmente dela e de seus amigos queridos em fazer algo que não existia. Como diria Renato Russo: 'a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto... de tudo que eu ainda não vi'.
E depois, as crônicas com sabor de confissão, os contos sem moral ou final surpreendente, os textos que retratam o cotidiano de São Paulo, trazem uma espécie de verdade e cumplicidade. Poderiam ser histórias de amigos na minha caixa de e-mail. No mega-congestionamento de 'Labirinto', a personagem se pergunta "quem mandou marcar a reunião nessa hora, nessa cidade, nessa vida?". Em outra passagem, ao reparar um menino, a narradora lembra que "para além dos traumas irreversíveis, existem horizontes de mar". En passant, Fernanda Carvalho atravessa questionamentos "Tecnologia? Talvez uma das raras coisas que mude parte de nossas rotinas. Distâncias passam a ser insignificantes; possibilidades, infinitas; conexão, uma exigência. (...) Já ouvi de autores hoje: 'Escrevo porque preciso'. Precisa? Do que nós precisamos realmente hoje?"
E a caminhada continua, quando nos deparamos com a poesia de Guilherme Dearo:
"Escutei-me, escutei o silêncio.
Ele dizia que o mundo era mundo,
era tudo aquilo que via,
mas não via.
Era tudo aquilo que ouvia,
mas não ouvia.
O mundo era cego, era quieto.
Tinha os olhos fechados, sentia."
Rogério Duarte lembra os anos Collor, de desvalorização da moeda, um porquinho de louça que ganhou vários nomes, caderneta de poupança, fundos DI, Renda Fixa, Multimercados, ações blue-chips, e que lhe rendeu o melhor porre de cerveja, "sozinho, reclamando da crise" na padaria perto de casa.
Lau Cerullo fala da 'Memória afetiva' que reside em certas receitas, essas que nos lembram a juventude perdida e os parentes queridos que já se perderam. Ana Six aparece em textos curtos, resistindo firmemente à ideia de Capitu traidora, dando uma de Sherlock Holmes no texto machadiano e supondo um possível problema sexual de Bentinho (hoje totalmente curável). Sílvia Teixeira inventa um conto de fadas moderno, onde 'Magrasta' consegue que nenhum casamento possa ter um final feliz.
Os contos/crônicas/textos continuam nessa espiral de misturas e gêneros diferentes, quando Marcello Fiore faz (em 'Cheia de defeitos') uma das declarações de amor mais bonitas que eu já li e Maria Esther Sammarone, na sequência, fala do casamento de um jeito tão aconchegante que dá vontade de largar o livro e ir casar outra vez.
Ah, eu até que tentei, mas não dá para saber pelos perfis dos autores o que é real, o que é ficção, o que é uma vontade louca de ser verdade. Também não dá para tirar, das leituras, um fio condutor do que o livro pretende... além de ser mundano, é claro. E, por isso mesmo, tão des-classificado, tão estranho e novo, tão diferente de tudo.
Mais:
Para quem quiser a lista dos mundanos, aqui e aqui.
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