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O bailado de Bruna Beber.
- Beber, Bruna. Balés. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009.
Ao ler Bruna Beber, me apaixono de novo, me visto inteira de poesia. O que é que existe nele, não me pergunte, nem dá para explicar. Talvez seja algo invisível a olho nu, uma espécie de aura, de tonalidade cinza que permeia e une tudo.
Não há rimas óbvias, não há metrificação palpável. Estranho encontrar poesia num lugar assim, mas é justamente onde ela desabrocha com mais vigor.
Não vou dizer que seu segundo livro exista para confirmar alguma coisa, como se os leitores fossem precisar de um certificado de autenticidade, ou uma garantia de continuação. Até porque um segundo livro pode ser a reinauguração de uma nova poesia, e também nisso Bruna poderia se sair perfeitamente bem, assim como artistas que mudam o rumo da prosa.
Balés, sem dúvida, evoca algo sublime, suave, e sério e doloroso ao mesmo tempo, assim como toda paixão em que se baila e que inevitavelmente chega ao fim. A cada momento em que se abre o livro, surgem novas sensações: há dias em que sobressai a paixão estonteante de quem entende das delícias do 'enrosco, aquele laço fatal', da vontade de se arranjar 'nos cobertores de alguém'. Em outros dias, aparece a ternura de 'um baile de dançar agarradinho'. E, em dias nublados, Bruna revela sua poesia mais forte, bate os pés porta adentro pela casa, se instala no sofá e pede um chá sem açúcar.
A harmonia de Bruna é justamente o sustenido, o bemol, aquele detalhe na nota que a torna imperfeita e, por isso mesmo, tão exata.
Os poemas mais óbvios, que encantam à primeira vista - e também os mais unânimes - não me seduziram tanto quanto 'Barragem' e aquele 'gosto de incêndio na boca', ou como 'Dorsal' e o 'caminho que fiz pra fugir de você nos meus cadernos'. Bruna demonstra toda sua humanidade ao perder-se no trajeto, ao desabar no desespero de quem acha que 'ainda parece cedo / para que tudo se acabe', ou quando descobre essa vontade louca de que o amor possa ser 'medido por um relógio de pulso quebrado'.
A poeta traz para a paixão a sua nota mais bela, o que mais a caracteriza: a angústia, a impossibilidade, o medo da perda, a maturidade e a consciência da efemeridade. O saber-se finito.
Porque, como vemos a todo instante (e agora com ainda mais intensidade) 'é muito grave fazer planos pra amanhã'.
Em mim, o que levo de Balés, cada vez mais, é a certeza triste de que 'nada nos assegura / nem ninguém poderá / nos defender, estamos vivos'.
Mais sobre Bruna Beber:
- entrevista em áudio no Entrelinhas
- resenha de Igor Fagundes no Jornal Rascunho
- entrevista para o Portal Literal
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