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- Revista Ficções 19 - abril/2010. Org. Julio Silveira (editora 25), Jorge Viveiros de Castro (7Letras) e Suzana Vargas (Estação das Letras)

 

Não é que a Ficções 19 desaponte. Na verdade, é uma revista muito boa. Editada desde 1996, é considerada 'um farol da criação escrita (...) ajudando a projetar as futuras grandes vozes da literatura', como dito pelo escritor Alessandro Garcia. Foi isso, inclusive, o que eu esperava dela. O problema, o ponto nodal, o xis da questão é o paradigma criado pelo texto de abertura 'Então você quer ser escritor?', de Charles Bukowski.

Numa página em vermelho, ele te põe contra a parede. E te faz refletir, te faz afundar, te faz ouvir dentro de você mesmo essa voz da consciência, grave e repreensiva. O texto branco que exsurge da página rubra indica a maldição, o peso, a responsabilidade, o carma de ser escritor, e sobretudo o compromisso com a excelência, já que escrever - na visão de Charles - necessariamente é algo que, para o escritor, deve ser inevitável. Charles Bukowski, nesse texto impressionante e espetacularmente perfeito, chega a levar os mais sensíveis às lágrimas, sussurrando-lhes no ouvido: não escreva, por favor, se não for a sua vocação. E enumera todas as motivações que devem afastar o pretenso escritor do caminho da literatura, admoestando esse escritor-leitor a não incomodar os outros com suas chatices e bobagens. Ou, como dito no texto, 'não seja como tantos escritores, não seja como tantos milhares de pessoas que chamam a si mesmas de escritores, não seja chato ou entediante e pretensioso, não se consuma pelo amor-próprio. as bibliotecas do mundo têm bocejado até a morte com gente como você. não aumente isso. não faça isso. a não ser que saia de sua alma como um foguete (...)' e por aí vai.

A partir de então, e de um texto apócrifo (certamente dos editores/organizadores), alegando que 'aconteceu de acharmos justamente nesses contos o que Bukowski exigia dos escritores: o sol que lhes queimava por dentro' - sob esses paradigmas! - é que vão ser lidos os textos subsequentes, na perspectiva de que partiram de pessoas (ou textos) teoricamente encaixados nessa descrição pormenorizada de Bukowski. 

Mas... não é o que acontece. Pelo menos para quem lê (e olha que eu ofereci a revista para outros, na expectativa de confirmar essa minha impressão). Quase como avaliar uma primeira prova, inteira, completa, perfeita, e dar com gosto a nota máxima, o Dez, e depois todos os demais alunos não alcançarem a mesma marca, diminuídos pela equiparação.

De fato, por melhores que sejam os textos - e eles realmente são bons - nenhum deles alcança a profundeza do que vem escrito à primeira página. Como se houvesse uma bandeira desfraldada, levando sombra e pequenez a tudo o que se abriga debaixo dela. Como se o paradigma fosse tão elevado, que nada o pudesse alcançar. Como se fosse colocada numa coletânea um conto de Jorge Luis Borges, e os demais não encostassem nele. E só aí já acredito que haja uma grande lição: não prometa nada que não possa cumprir; não junte textos de jovens autores com clássicos literários.

O jeito é fingir que o texto de Bukowski está num plano metafísico, e ler o resto da Revista de modo totalmente isento, desvinculado, como se não houvesse qualquer promessa. Ou, já que estou advertindo os demais leitores, pode ser interessante deixar para ler o texto do Bukowski no final. Só assim, podemos prosseguir com calma.

O conto de Braulio Tavares é ótimo na abertura, e eu já tinha lido outros contos ficcionais dele na Portal 2001, de modo que já conhecia a narrativa do Braulio. Também Cassiano Vianna, num ensaio, adianta o recorte de uma futura biografia de Cortázar, ainda em projeto e, com o texto biográfico, traz excertos preciosos do escritor argentino em Rayuela e outros contos, como Axolote, além das fotos belíssimas de Sérgio Werner (que, a propósito, ao final da revista, descobrimos que mora em Paris, o que justifica bem as fotos incríveis).

Na sequência, Felipe Pena, Ana Santos, Livia Garcia-Roza, Aleks Costa e Alessandro Garcia apresentam bons contos. Ondjaki sobressai levemente, seja pelo tema da fuga, seja pela forma da narrativa, sempre deliciosamente diferente da tradicional linguagem pt-br. E os contos se seguem, com Tiago Montenegro, Clayton C., André Giusti, Claudia Nina, Ana Cristina Melo, Maria Alzira Brum, e novamente são interrompidos por um delicioso ensaio sobre uma passagem da vida de J(erome) D(avid) Salinger, numa espécie de chacota feita por Enrique Vila-Matas, sobre a brincadeira de esconde-esconde do escritor que, ao se esconder, incita que o procurem e o exibam cada vez mais. Julio Silveira, no eficiente 'O apanhador de crenças, o avatar bengalês e a filha do homem de aço' surpreende, contando uma passagem no mínimo inusitada sobre as crenças do escritor - que iam da Cientologia à urinoterapia - , sobre o estabelecimento da religião hindu nos primórdios do século XX (1933) em NY, e sobre a existência triste e obscura da filha de Stalin, uma azarada no amor cujos maridos (genros de Stalin) não sobreviviam à fúria e aos ciúmes do pai e do Partido Vermelho.

Henrique Amud, Cristiane Costa, Marcelo Barbão, Graziella Albuquerque e Nilton Resende seguem no compasso dos demais contistas, e a revista se fecha com apresentação de Rodrigo de Souza Leão e um excerto de seu livro 'Me roubaram uns dias contados' (que se seguiu a 'Todos os cachorros são azuis', editado pela 7Letras com apoio de bolsa Petrobrás), publicado post mortem. Rodrigo, sim, dá o mesmo recado sem aquela grandiloquência de Bukowski, chegando na voz dos demais contistas: "Viva ao máximo! O que importa são os momentos. Se o livro for rejeitado, não desista! Se você gosta de escrever, então escreva para você mesmo. Eu só fui publicado quando escrevi para mim mesmo."

Essa, sim, a tônica que deveria ter iniciado o livro, deixando o fechamento com Bukowski.

Mas acredito que essa será uma lição para as próximas edições. De resto, repito o desejo do blogueiro Kovacs, de longa vida à Revista, aos organizadores que admiro tanto, e aos amigos e não-amigos contistas, escritores, ensaístas que, sem ideia do prólogo de Charles Bukowski, cumpriram bem o encargo e foram justa e criteriosamente selecionados para a competente coletânea da Ficções 19.