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Capa de 'Antes do 174'

por Paula Cajaty e Fernanda Freitas

 

- Montenegro, Janda. Antes do 174. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2010.

No dia 12 de junho de 2000, o Brasil inteiro acompanhou atônito o seqüestro do ônibus 174 (Central-Gávea) por Sandro do Nascimento. Aconteceu numa área nobre do Rio de Janeiro e durou uma tarde inteira.

Baseado nesse acontecimento real, Jandra conta uma história ficcional em que descreve os momentos antes do crime, desde o inicio do dia até o instante em que Sandro sobe no ônibus.

A história tem apenas um personagem, com isso nos colocamos no lugar do morador de rua e acompanhamos a forma de encarar o mundo por outra perspectiva.

O que leva alguém a cometer um crime? Sandro tinha muitas mágoas e traumas, foi sobrevivente da “Chacina da Candelária”, presenciou o assassinato de sua mãe, sofreu opressão por outros moradores de rua mais velhos e sentia na pele como é ser desprezado, esquecido e tratado como um lixo. Não crê em Deus, busca prazer nas drogas e se questiona por que tem essa vida largada. Afinal: questiona se é um ser humano como todos os outros.


 

De acordo com o livro, ele passou por tantas situações de sofrimento e injustiça que se vê revoltado, sem escolha e resolve fazer as pessoas notarem sua presença, mesmo que seja através do sangue. A crítica à sociedade é o principal ponto. Todos andam por aí com seus carros, jóias, celulares e não conseguem enxergar as pessoas passando fome, dormindo no chão, sentindo frio, sem levar uma vida digna ou carregar consigo esperanças e perspectivas de uma existência melhor.

“O que você não entende é como um homem ou uma mulher-coleira como está conseguia gastar mais dinheiro para enfeitar seus animais do que ajudando as muitas sombras que imploram por ajuda pelas ruas da cidade do lado de baixo da ladeira”

Com uma linguagem levemente poética, a autora diversas vezes usa a redundância como uma forma de dar ênfase ao sofrimento de Sandro. Janda também nos leva a refletir duramente sobre as desigualdades da sociedade atual, notadamente apontadas por sociólogos e estudiosos da pós-modernidade, e que começam a gerar efeitos para além dos limites territoriais das nações onde o estágio de desenvolvimento se encontra mais avançado. Esse é o primeiro livro da carreira de Jandra Montenegro, formada em Letras pela UFRJ e pós-graduada em Produção Editorial, e organizadora do Encontro Literário de Skoobers-RJ. E, como ela mesma relata, surpreendentemente foi escrito em apenas dois dias.