Sexo, tempo e poesia

 

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leitura de Algo sem gesso

 

- Daflon, Fabio e Filho, Alberto Daflon. Algo sem gesso. Rio de Janeiro: Contraste Editora, 2009.

Os médicos têm algo de deuses. Veem, como nenhum outro, a vida e a morte em sua face mais crua. Ouvem, como nenhum outro, lágrimas, orações e agradecimentos eternos.

Os poetas têm algo de deuses. Escutam vozes no mormaço, observam o tempo em outras dimensões, criam palavras que preenchem os vazios do mundo.

Como Marcus Salgado adianta, no prefácio, talvez por isso médicos também sejam exímios poetas, ou seria o contrário? Assim também foi com Madeira Freitas, Pedro Nava, Guimarães Rosa, Helio Pellegrino, Fernando Sabino, Otto Lara e Paulo Mendes Campos, apenas para citar os antigos, e continua sendo com Pitanguy e Maria Tereza Maldonado (antes da literatura contemporânea brasileira ser quase totalmente abduzida por jornalistas...).

Precisos no bisturi e na métrica, no cuidado com a rigidez dos ossos e das palavras, os médicos são também tenazes extirpadores da miséria humana, do erro da criação, dos desajustes do corpo, rígidos alunos na disciplina da superação e os primeiros da fila na plateia dos milagres divinos.

Fabio Daflon abre o horizonte da criação poética ao seu irmão, Alberto Daflon Filho. Mais solto, Fabio diverte-se com sonetos à moda antiga, trazendo as histórias da Vênus negra casamenteira, da mexicana sestrosa, da mulher-avenca. Fabio puxa a cadeira para que Alberto, seu irmão, possa degustar a fraternidade de um chá a dois, possa desengessar-se a si mesmo e perambular para além de ossos e mústulos, possa unir-se nessa deliciosa conversa a dois e reparar um pouco mais na poesia que permeia a natureza e, sobretudo, a nossa infinita humanidade.

'Algo sem gesso' é um livro interessante, entretecido de duas vozes voláteis que, palavreando o vento feito éter, não se engessam em nada, e talvez possam ensinar as mais divinas felicidades e permitir as mais milagrosas curas - inclusive para eles próprios: os médicos.