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por José M. Neistein (de Washington, D.C., maio, 2011)

- Na sombra do herói. Cruz, Gilda Oswaldo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2010.

A memória é necessária para todas as operações da razão - Pascal, Pensées, 369

Duas grandes coordenadas situam esta obra: o memorialismo e a ficção. Esta, se  alimenta daquele, e o absorve num amálgama inseparável. Contudo, a ficção prevalece e confere realidade ao memorial. Mais uma vez, a ficção vem a ser uma manifestação supra-real. No processo de refazer a realidade, ela a transcende.

Este romance, baseado na saga de uma ilustre família brasileira, cobre três gerações de sua trajetória histórica, e o início de uma quarta. A narrativa, feita na terceira pessoa, é linear, entrecortada de diálogos, e a passagem do tempo não é assinalada por datas, mas sim  pelos acontecimentos históricos nacionais e internacionais  entrelaçados à ação. Esta, por sua vez, começa com a vinda ao Brasil do imigrante português pobre que se fixa no Rio de Janeiro nas últimas décadas do Império, e arrola os destinos de seus descendentes, enlaçados pelo ramo materno com uma velha família fluminense, até o início da Segunda Grande Guerra.



A exemplo do que se fazia no século dezenove, quando muitos romances foram publicados inicialmente em capítulos semanais, nos folhetins de jornais e revistas, antes de se consolidarem em forma de livro (ocorrem-me de imediato os exemplos de Anthony Trollope na Inglaterra e Machado de Assis no Brasil), assim também este romance, que não foi publicado em capítulos semanais, foi, contudo, concebido em sua estrutura à semelhança daqueles, pois é feito de capítulos curtos, que variam de uma a três páginas e possuem igual caráter: cada capítulo nos remete ao próximo, e, ao terminar, aguça a curiosidade do leitor pelo que vem a seguir. Muitas vezes os capítulos são encerrados por uma nota de suspense; outras vezes, por uma formulação poética. Mas sempre tendo em vista a fluidez do caudal.

Os eventos da geração mais antiga são descritos em quarenta capítulos que levam algarismos romanos. A narrativa das gerações posteriores evolui em 131 capítulos assinalados por algarismos arábicos. Um recurso que a Autora adota para dividir as águas da própria história da família, entre o bisavô que soube fazer fortuna, mas que também soube perdê-la em imprudentes negócios imobiliários e especulativos, e seus descendentes, dedicados às ciências bio-médicas.

O herói de que fala o título é o nome mais notável da história das ciências no Brasil. No romance, ele comparece como Otávio Gonzaga Santos, genro do Comendador Pacheco, o imigrante bem sucedido. Na vida real, trata-se de Oswaldo Gonçalves Cruz (1872-1917), médico, bacteriologista,epidemiologista, sanitarista, fundador do Insituto Oswaldo Cruz, responsável por memoráveis campanhas sanitárias no Brasil, protagonista da controvérsia da vacina anti-varíola. É à sombra desse herói que os filhos Tadeu e Conado têm que se haver, e é de sua sombra que emergem as realidades mais íntimas de cada um deles. Sobressai-se Conrado, de fato Walter Oswaldo Cruz (1910-1967), hexa-campeão brasileiro de xadrez, hematologista, médico, e pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, pai da Autora. O fascínio do romance reside, em grande parte, na tentativa de reconstrução do retrato de corpo inteiro de Conrado. Baseada na experiência direta, em cartas, documentos, histórias de tradição oral da família e sua mitologia, mas também em sua imaginação e em seu talento fabulatório, a Autora nos dá um dos personagens mais complexos da literatura brasileira, rara combinação de amabilidade e abjeção, brilho e boçalidade, descrito e analisado com admiração e objetividade crítica em iguais proporções. Nada é poupado. Essa reconstituição romanesco-memorialista acaba por assumir um caráter exorcista.

Todos os personagens do romance são delineados e recortados com exatidão, clareza e riqueza de pormenores, tanto os protagonistas como os deuterogonistas. Mesmo as figuras mais modestas merecem um tratamento claro e objetivo. A linhagem masculina é marcada pela ambição profissional e  pelo fantasma do diabetes. A feminina, pelo senso de responsabilidade na preservação dos valores tradicionais. A matriarca Ana Gomes, por exemplo, é uma réplica nacional de Bernarda Alba. A governanta alemã, Lotte, cálida, submissa, encarna os valores tradicionais campônios bávaros. Já Eva, a protagonista da geração moderna, é a mulher equilibrada, preocupada com a justiça social e sedenta de felicidade pessoal, que rompe com os padrões anteriores, mas é conservadora à sua maneira. Pacheco, Tadeu e Conrado são, cada qual a seu modo, voluntariosos, déspotas, arrogantes, imprevisíveis, irredutíveis em suas posições, brilhantes. Todos eles apaixonados pelas aventuras extra-cojugais; Conrado, especialmente. Misógino como Don Juan Tenório, ele despreza todas as mulheres com quem dorme. O que lhe importa é o sabor da caça. Um exemplar perfeito do chauvinismo machista.Uma exceção entre os homens é a presença do primo Elói, um sutil camafeu. Desiludido de sua única paixão irrealizada, ele se refugia em sua fazenda no interior de Minas, onde levará uma vida serena, ascética (ele também é diabético), dedicado aos estudos universais em sua farta biblioteca, em busca das profundezas do verdadeiro saber.

O romance evolui tanto graças à riqueza dos acontecimentos como graças ao tratamento rítmico da composição. A Autora é pianista premiada e faz carreira internacional. Essa dimensão lhe dá uma intuição cereteira no ritmo da narração. Outra sua dimensão, e aí ela se revela uma genuína Oswaldo Cruz, é a paixão pela concisão científica na descrição da sintomatologia médica, na estrutura dos fenômenos naturais (cósmicos, minerais, vegetais e animais), na capacidade de vivisecção do comportamento emocional, na análise das idéias, dos fenômenos atmosféricos, da relação entre a postura física e os estados mentais, e mais. Seu domínio dos níveis eruditos da língua portuguêsa é uma constante, do começo ao fim, e insere este romance na grande tradição urbana do século dezenove, cultivada por Eça e Camillo, José de Alencar e Machado de Assis, e que vem até Érico Veríssimo. Fica patente a capacidade de evocação e vitalização de tudo o que a Autora toca, da intimidade dos pensamentos mais recônditos aos perfumes do mato e da maresia, à paisagem marinha, às montanhas, à arquitetura e à ambientação das existências dentro dela, aos vôos dos pássaros, às moscas que esfregam suas patas dianteiras ninguém sabe porque, aos lances das partidas de xadrez, à mecânica da incipiente aeronáutica, ao automobilismo clássico, à culinária, à moda, ás convenções sociais, e mais, e mais. Como Virginia Woolf em "Orlando", Gilda tem a capacidade de empatizar com as características do comportamento psico-sexual tanto da mulher como do homem.

Sua acuidade com o geral e o particular se faz valer também nos acontecimentos políticos nacionais e internacionais que servem de pano de fundo á ação romanesca: a Primeira Grande Guerra, a efervescência do modernismo em São Paulo, a Revolução Constitucionalista, a Guerra Civil na Espanha, a ascenção do nazi-fascismo, o Estado Novo, a discussão das ideologias políticas entre os protagonistas, a manifestação dos preconceitos sociais e raciais como expressados e vividos pelas classes altas, seu patrernalismo com as classes subordinadas, bem como sua subserviência aos valores europeus, a anglofilia e francofilia incondicionais, o desprezo pelas realidades locais, o catolicismo beato e o anti-catolicismo feroz, cientificista, as militâncias de esquerda e de direita, a tendência simplificadora das idéias filosóficas nas discussões intelectuais, tudo isso é tratado com imensa acuidade e percepção, sem nunca perder de vista a perspectiva da obra de arte, que quer se constituir como tal, e que, portanto, tem suas regras próprias.

A Autora, expatriada voluntária, não vive no Brasil há muitos anos, mas o Brasil vive dentro dela, e "Na sombra do herói" tanto pode ser lido como fascinante obra de ficção, como também como uma admirável introdução ao Brasil moderno. Seus personagens têm vida própria, mas também definem os paradigmas de uma cultura.