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- Gaiman, Neil. Coisas frágeis. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2008.

 

Tive contato pela primeira vez com a narrativa de Neil Gaiman na FLIP-2008. Numa das mesas, ele se dizia muito chateado por não terem publicado em 'Coisas frágeis', que seria lançado na ocasião, todos os contos incluídos na edição original
paperback em inglês. Não sei se foi jogada de marketing, ou se ele realmente queria mostrar ao público o que havia sido 'cortado', mas funcionou: ele leu o conto 'Os outros', narrado por um demônio, com a sua própria voz sombria e pausada, e foi esse o conto que acendeu meu interesse pelo trabalho do escritor.

Demorei um tempo até comprar e abrir 'Coisas frágeis': sabia que isso precisava ser feito 'in the mood', e não é todo dia que uma poeta está com o clima de se meter com literatura noir. Mas o frio dessa semana justificou a leitura punk.

O livro reúne 9 contos sob a ilustração de um menino de pijama e um índio gigantes, subindo em edifícios, e se perguntando se as pessoas que transitam pela rua teriam noção de sua existência.

No primeiro conto, um susto: me aborreci um pouco com a narrativa. É que eu odeio quando os tradutores traduzem ao pé da letra interjeições estrangeiras. Ler interjeições inglesas traduzidas é algo totalmente nonsense. Nesse caso, é preferível ler direto em inglês. Basicamente, seria o mesmo que ver 'A nova onda do imperador' ou 'Rio' com gírias e piadinhas gringas, sem nenhuma adaptação à realidade brasileira. O resultado é que parece que estamos lendo Sidney Sheldon.

No entanto, passado o estranhamento inicial, os outros contos foram uma boa surpresa.


 

Talvez a linguagem tenha cedido espaço ao enredo, talvez Gaiman tenha abdicado de 'sacadas' estritamente inglesas, ou talvez o tradutor tenha se aprumado no teclado, não sei. A questão é que unir gastronomia à história da Fênix (em O pássaro do sol), imaginar uma história real para a protagonista das Crônicas de Nárnia ( em O problema de Susan), ou ainda ambientar uma festa adolescente em que as meninas são totalmente alienígenas (Como conversar com garotas em festas), é algo absolutamente genial, e acaba por sobrepujar eventuais vícios de linguagem (ou de tradução) na narrativa.

O conto mais espetacular, entre todos, não é o que geralmente apontam 'Um estudo em esmeralda', só pela ideia de caracterizar os membros da realeza como moluscos extraterrenos de sangue verde (muito embora eu compreenda o sucesso do conto entre os ingleses, e cuja leitura até teve um toque a mais de graça nessas últimas semanas em que o casamento do príncipe-herdeiro estava rolando, e a narrativa de Gaiman poderia suscitar a expectativa de alguma transformação monstruosa no altar).

Bem, o melhor de todos os contos é 'A vez de outubro', em que os meses personificados confabulam entre si, têm diferentes atitudes, e se reúnem à volta da fogueira para contar histórias de suspense e terror. O mais interessante contudo, é que o fim do livro traz uma incógnita, e eu seria uma terrível spoiler ao revelar o questionamento que confere a genialidade ao conto.

Interessante notar que o próprio autor conta a história da gênese de cada conto, mas o melhor é deixar para ler a introdução no final, já que o texto funciona mais como posfácio. Como ele diz, e seria uma bela forma de terminar a leitura, 'Histórias, assim como pessoas, borboletas, ovos de aves canoras, corações humanos e sonhos, também são coisas frágeis, feitas de nada mais forte ou duradouro do que 26 letras e um punhado de sinais de pontuação. Ou então são palavras no ar, compostas de sonhos e ideias - abstratas, invisíveis, sumindo no momento em que são pronunciadas -, e o que poderia ser mais frágil do que isso? Mas algumas histórias, pequenas, simples, sobre gente embarcando em aventuras ou realizando maravilhas, contos de milagres e de monstros, duram mais do que todas as pessoas que as contaram, e algumas duram mais do que as próprias terras onde elas foram criadas.'

'Coisas frágeis' realmente mexe com o imaginário do leitor, desperta a criatividade e pode tornar até um café-da-manhã surreal, imaginando-se que um café-com-leite fervendo pode ser a chave para transformar um zumbi em um super-herói, ou que o padeiro possa ser alguém que distribui um pão envenenado que não nos permite acordar para a 'vida real'.

Bem, calma, estou só brincando... ou afiando a ponta do lápis.

Mas o engraçado é que o livro dá uma visão louca sobre o mundo à volta, como se alguém clicasse a tecla do famoso 'E se...', ou se estivéssemos sob o efeito de algum alucinógeno, com um humor negro e imaginando coisas impossíveis.

Entre uma e outra pesquisa, antes de redigir o texto final da resenha, fiquei sabendo que a Conrad corrigiu o (crasso) erro da supressão de contos da versão original (que reunia 31 contos), e (felizmente) publicou um segundo livro 'Coisas Frágeis 2', em 2010, aliás duramente criticado por reunir os remanescentes 15 contos e 9 poemas, e por ser considerado 'o que restou de pior' do primeiro volume. No entanto, há quem entenda de outra forma, identificando a equivalência do total de 22 textos remanescentes com as 22 cartas do tarô.

Pelo sim, pelo não, vou comprar o livro. Só para ler aquele conto do demônio outra vez.

 

Mais:

- um conto de Neil Gaiman na internet 'Bolinhos de bebê': e totalmente dedicado à clínica do médico-monstro Abdelmassih e suas pesquisas com material genético humano

- estudo da capa, por Jonathan Yamakami

- twitter do autor: @neilhimself

- outra resenha, no Digestivo Cultural

- site do Neil Gaiman