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- Thomaz, Daniel. Adeus à carne e outros contos noturnos. Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2010.

Daniel Thomaz é historiador. Talvez por isso seu primeiro livro de ficção se debruce pelos momentos que antecedem a morte, pelos momentos cruciais de despedida, justamente aqueles que entram para a história. Adeus à carne e outros contos noturnos investiga esse clique que permite ao personagem uma espécie de libertação.

A morte, tratada por Daniel, não é apenas o término da vida. São as mil mortes que acompanham o ser humano, os mil lutos, as mil despedidas que assombram a linha do tempo. Será que lidar diretamente com a morte, com o passado, com relatos de pessoas que já não mais existem teria o condão de criar histórias possíveis para o escritor? Será que o historiador cansou-se de registrar vidas e mortes existentes e quis colocá-las em pé de igualdade as milhares de vidas e mortes sequer registradas pela história? Todas essas perguntas me perseguem enquanto leio os relatos da mulher engolida por uma tsnuami, do namorado que se decide entre um estilete e um telefone e quase se mata de amor, do homem que aprende a viver em outra dimensão, do artista que resolve fazer uma instalação com o sacrifício de seu próprio corpo.

Daniel Thomaz, cuja narrativa já se destacava em um curso de contos que felizmente fizemos juntos, sob a orientação do querido mestre Flávio Carneiro, reproduzia com fidelidade a oratória de Machado de Assis (um espanto, depois revelado pela pesquisa árdua do escritor nos jornais de época).

Imaginei que ele fosse seguir a estranheza de escrever no século XXI como se escrevia no século XVIII. Mas ele fez diferente. Seu livro de estreia evoca um livro que há muito tempo li, intitulado 'Os grandes momentos da humanidade', do clássico escritor Stéphan Zweig - que, curiosamente, também deu o seu adeus à carne, suicidando-se em Petrópolis. Em 'Os grandes momentos...', Zweig investiga o momento crucial da genialidade, o momento da epifania que permite ao cidadão comum ingressar para os alfarrábios da história, sempre momentos talhados em altíssima densidade e sofrimento.

Todos os segundos identificados pelo exímio ensaísta austríaco não deixavam de conter sua morte particular. Qual o exato minuto, qual o evento que torna um escritor medíocre em uma mente genial? Qual o exato momento no qual é necessária aquela centelha de vidência ou sorte que permite a decisão perfeita? E, quando se está defronte de uma decisão desta envergadura, o que é que em nós precisa morrer?

Stéphan investigava esses momentos, assim como Daniel Thomaz investiga, em seus contos, a vivência exuberante que o passado esconde, a extrema lucidez que traz em si uma espécie de loucura, e leva o leitor às histórias de quem 'prefere lançar-se no escuro, abraçar o nada, deixar tudo para trás'. Ao fim de cada leitura, podemos ver toda a beleza de seus personagens, densos, profundos, inquietos, despedindo-se da carne, das misérias, dos sonhos, dos amores, das tragédias particulares e enfim levando 'um silêncio enorme consigo'.

 

Mais:

- entrevista com o escritor para o SBT no Youtube.