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por F. Freitas e Paula Cajaty

 

- Ferreira, Victor José (org.). Trilhos & Letras - Uma antologia do trem. Florianópolis: Pandion, 2010.

"O trem que transporta gente, esse, sim, leva sonhos, traz conquistas; deixa saudade, leva vontade de voltar; promove encontros e despedidas; provoca tristezas e alegrias."

A antologia organizada por Victor José Ferreira, presidente do MPF - Movimento de Preservação Ferroviária, conta a história do trem desde a criação das primeiras estradas de ferro, o seu avanço, sua utilidade para a população, até o momento em que os trens que transportavam pessoas, sonhos e desejos começaram a ser substituídos pelos que transportam cargas.

O livro é dividido em três partes, a primeira reúne crônicas e contos, de grandes escritores como Paulo Coelho, Ivan Lins, Martha Medeiros, Ordilei Alves entre outros. Na segunda e terceira parte "Trem dá Verso" e "Trem dá Música" encontramos poesias, versos e músicas de Ferreira Gullar, Osmar Rodrigues, Marcelo Saldanha, e outros que celebram com a arte os bons tempos da estrada de ferro.

Em uma das crônicas, Ordilei Alves conta sobre a vida de Marcelo, um menino pobre, que passava dificuldades para ajudar sua família, trabalhava muito, não conseguia tempo para estudar e desejava mudar de vida. Sua esperança estava nos trens que poderiam o levar pra outro lugar, longe daquele sofrimento. Um dia larga tudo e embarca nessa viagem sem destino específico. Mesmo assustado sentia a liberdade que tanto buscava. Quantas pessoas não tiveram a mesma história de Marcelo e assim como ele mudaram suas vidas graças aos trens? É isso que Victor investiga, o registro da passagem do trem na vida das pessoas, através da literatura.

Com a popularização dos transportes rodoviários os trens foram perdendo espaço, passaram a fazer transporte de carga e aquela festa de cada chegada ou partida não acontecia mais. Quem conhece o interior, vê como o trem deixou uma cicatriz: na vida das cidades, que ficaram desertas, na vida das pessoas, que ficaram vazias. Ainda pior do que isso, Victor examina em que momento o trem perdeu sua alma. O que era antes motivo de orgulho e admiração passa a ser uma instalação fúnebre, fantasmagórica, no lado pobre das cidades. A alma do trem se vai junto com os sonhos e angústias de seus operadores.

È impossível pensar na história e no desenvolvimento do país sem pensar nos trens e como eles foram fundamentais para isso. A agroindústria, a arte, e tantas outras áreas, só se expandiram devido à facilidade obtida com a estrada de ferro. Hoje em dia, vive apenas na memória aquele tempo das viagens mais longas, da Maria fumaça e da saudade que se dissipava na fumaça branca nas estações. Nesse livro encontramos não só uma bela homenagem feita por grandes autores ao lirismo e à magia dos trens, mas também um apelo irresistível em favor da revitalização ferroviária.