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por Paula Cajaty e F. Freitas

 

- Lopes, Moacir Costa. A ostra e o vento. Rio de Janeiro : Quartet, 2000. 7ª ed.

Moacir Costa Lopes é um dos poucos escritores brasileiros que dá voz ao mar e ao mundo que o rodeia. Em 'A ostra e o vento', tudo na Ilha dos Afogados reflete em Marcela: cada vento, cada ave, o mar, as árvores. Marcela é a protagonista que aos 9 anos foi morar na ilha dos Afogados com seu pai José, um faroleiro ranzinza e autoritário, e Daniel, seu auxiliar. Daniel ajudava a cuidar da ilha e mantinha uma carinhosa relação com Marcela, ensinando-a a ler e escrever, contando-lhe histórias e falando da vida e dos sentimentos.


 

Marcela cresce e se torna uma moça solitária, vivendo entre dois homens velhos. Passou então a viver uma fantasia: descobre para si um companheiro, Saulo, cuja presença somente ela pode sentir. Apaixona-se por ele e o encontra todas as noites. Apesar de não passar de um devaneio de Marcela, Saulo parecia estar realmente presente na ilha. A relação entre os dois era tão intensa que todos acreditavam no romance, principalmente seu pai, José, que chegava à beira da loucura e desespera-se na procura por Saulo. 

Daniel foi substituído por Roberto, um auxiliar mais novo, que também é proibido de se aproximar de Marcela, muito embora a moça só pensasse em Saulo. Era em seu diário que Marcela contava a história de amor. A cada dia ao lado dele podia descobrir mais sobre si mesma, seu corpo, sua vida. Marcela tornara-se mulher e através do vento ouvia o chamado de sua paixão:

"Saulo é tão importante que está tomando conta de mim inteiramente. Nem posso mais entregar-me aos afazeres normais, auxiliar papai ou Roberto, que logo escuto seu chamado e corro sempre para ele. Vejo-o em todos os cantos da ilha, sinto-o em todas as partes de meu corpo, e espero que os mumbebos, de asas abertas, gritem do coral as horas que farão noite e possa correr para entregar-me a ele na praia. Já não importa que pai ou Roberto esteja ou não dormindo, já nem cuido que presenciem nossa posse."

Daniel retorna à ilha, mas não havia mais ninguém, nenhum movimento, nenhum barco próximo. Através do diário de Marcela é que Daniel encontrará a pista para resgatar os momentos vividos ao lado de Marcela, e pode desvendar o mistério do desaparecimento. Saulo era uma fantasia tão real, que também se torna um dos narradores da história.

Neste livro os narradores se alternam, variando entre Daniel, Marcela e até mesmo Saulo. Não segue uma cronologia exata, passado e presente se envolvem de forma harmônica. Uma obra-prima, com eficácia, envolve e surpreende o leitor. Foi adaptada para o cinema, recebeu grandes premiações, entre elas o prêmio CinemAvvenire no Festival de Veneza 1997 (Itália) e o Troféu Dom Quixote no Festival International de Films de Fribourg 1998 (Suíça).

A obra de Moacir Costa Lopes, falecido em 2010, é um raro exemplar da literatura brasileira que recebe a atenção e reverência de acadêmicos e pesquisadores de diversas universidades estrangeiras.