Sexo, tempo e poesia

 

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Mauro Vinicius da S. Siqueira, do Rio de Janeiro, RJ, já trabalhou em todas as pontas do triângulo editorial, tem um livro de contos publicado, acaba de emplacar um conto na Revista Literária Ficções#19, cava tudo o que pode quando o assunto é bookdesign, foi certificado como 'Publisher Manager' pela FGV-RJ e investe pesado no mundo virtual. Além de ser, é claro, ótima companhia para um chope de buteco (offline), ouvir música (online), e jogar conversa fora sobre o nonsense do cotidiano pós-twitter.

 

 

 

 

Paula: Você trabalha intensamente com sites e blogs, e divulga sua produção literária num blog com o mesmo nome de seu último livro, De vermes e outros animais rastejantes. O que, para um escritor, significa estar online hoje em dia?

Mauro: Estar online hoje para um escritor é estar online. É estar de alguma forma ligado a tudo que acontece e deixar-se ligar a essa imensa massa de acontecimentos, de contatos, informações pessoas, ideias... E para um escritor, novato como eu é fundamental, porém não determinante – ainda existem aqueles que optam pelo tradicional, mas que vejo como um caminho mais longo e com mais curvas – estar offline é vagar no limbo. Estar online é poder apresentar, o menor que for, seja lá pra quem, um conto ou dois, de maneira rápida e sem precisar de 'atravessadores'. É curioso você citar o meu blog, que leva o nome do meu primeiro livro: 'De vermes e outros animais rastejantes'. A ideia era fazer dele uma extensão do livro, algo pulsante e que continuasse sobre diversas possibilidades as histórias do livro – e tentei vender essa ideia. Mas acabou por se tornar um blog 'meu' mesmo, só que eu não sou meu livro! Então é delicioso esse conflito, nele há muito mais de mim do que do livro, mas é recheado de literatura, inclusive reminiscências literárias, então acabo divulgando o escritor nem tanto a literatura, para isso há 'O BULE' e outros espaços que rodeio. E esse blog não é o meu primeiro blog, o primeiro tinha um nome curioso e paradoxal com um pouco daquilo que um escritor neófito procura que é visibilidade: chamava-se 'Sujeit’Oculto'. Então, acho que estar online é estar visível e disponível; qual o escritor, já com alguma bagagem, não possui um site, um blog? Mesmo que não seja ele a pessoa encarregada de 'alimentar' aquele espaço, mas a editora, seu agente, alguém... são raros! Estar online é de fato querer aparecer da melhor forma que um escritor pode aparecer: pelo seu texto. Pelas suas leituras, opiniões... é um canal de contato importante para ele e seu trabalho.

Paula. Você vem de uma linha mais academicista. O que há de céu e inferno no trabalho com a literatura, no meio acadêmico? E como isso se coaduna com as tendências (totalmente vanguardistas e anarquistas) da internet?

Mauro: Não sei se venho exatamente de uma linha acadêmica, apesar da minha literatura ter sido mostrada dentro e exposta a um pequeno crivo também de dentro, é mais provável o caminho contrário: estou indo nessa direção, junto com as minhas ideias e planos ainda muito incipientes de pesquisa – no caso, a produção literária contemporânea. Então, não saberia responder a sua pergunta. Aqui, nas faculdades de letras, ensina-se teoria literária, mas não observo o incentivo coordenado à leitura de obras literárias – lemos livros por olhos terceiros – mas imputo a culpa quase que totalmente aos alunos, que cada ano aparentam mais desinteresses e sem iniciativa. Tenho uma pequena ideia do que é estudar de maneira mais vertical a literatura, o grupo de pesquisa de que fiz parte, coordenado pelo professor Italo Moriconi, e junto de dois grandes amigos, Bruna Mitrano e José Alexandre Oliveira, serviu muito para isso e, basicamente passamos um ano lendo e debatendo boa parte da produção da literatura contemporânea. Essa pesquisa, de alguma forma, converge para minha literatura pelo simples fato dela também (querer) pertencer a esse zeitgeist e por conhecer um pouco do que compõe esse momento, acabo intencionalmente tentando ou incluindo essas questões nas minhas propostas de literatura. Para minha sorte, a instituição da qual pertenço possui em suas cadeiras vários professores-escritores nesse momento de intensa produção literária e por conta disso, 'o que está acontecendo fora' não está tão distante 'do que está sendo debatido dentro', que a meu ver sempre foi a miopia da Academia, que perdia de vista tendências, temáticas, atuantes do jogo literário da hora etc., dependendo o leitor apenas das mídias para fazer divulgação, pois exatamente por não olhar com a devida atenção a Rede, mas isso no nosso caso, pois a Internet só é hoje o que é graças às necessidades das universidades estarem em comunicação umas com as outras, as nossas lidam bem com a Rede, as nossas barreiras são os recursos e não as formas de uso. Hoje, felizmente o quadro é outro, percebo uma maior aproximação da Academia com a produção literária atual.

Paula: Não sei se você sabe, mas seu ranking no twitter (twitterrank de @maurovss)conta ao mundo internauta que você é super bem cotado. E, além de perfil em tudo o que é rede social, FB, twitter, O Livreiro, agora também participa d' O BULE, um blog coletivo interessantíssimo, cheio de design e super bem diagramado. Quais são os pontos de convergência e divergência da sua intensa atuação online com seu trabalho literário? Ah, e como você separa o que vai para internet e o que vai virar livro?

Mauro: Confesso que isso foi uma grande surpresa e claro que interrompi as respostas para correr até lá e ver esse ranqueamento, mas ainda estou na dúvida desse 'super bem cotado', estou longe de iniciar um viral, de colocar um termo no TT’s, aliás, meus objetivos no twitter nem são esses... Aliás número dois, não tenho lá objetivos claros a não ser de compartilhar, trocar, conhecer. Com o Twitter me foi 'concedido' mais do que em outras redes sociais, bandas que conheci, livros, ideias que me foram apresentadas, pessoas – amigos mesmo. Eu sou afeito a esses ambientes virtuais desde os tempos do Icq, Napster, e salas de bate-papo do Terra quando ainda se chamava Zaz! Sou 'internet heavy user', sempre online e quando não, em standby. O twitter é uma coisa incrível, hoje é a ferramenta que mais uso, junto do Facebook. Sem contar as outras redes sociais e afins, você citou o Livreiro, mas pouco acessso, achei o Skoob mais interessante, há pouco criei um Tumblr, já tive blog de fotos (#fail), de vídeos (#fail) e uns três pessoais. Hoje reduzi essa atividade e ainda assim é muita. Se não, não faço outra coisa, ficamos inventando hábitos que nos tomam tempo. Hoje só me detenho no meu blog, e supercaótico no que tange a atualização, e O BULE, essa grata surpresa com seis meses de vida, que vêm abrindo portas de oportunidades, e que comecei colaborando com um texto e hoje sou um dos colunistas fixos e que nos bastidores batalho na divulgação com os outros cinco e ainda no layout que você elogiou, mas que faria muitas mudanças, pois apenas o herdei e acho que carece de alguém só para ele, de qualquer forma, tentamos é deixar o texto em destaque. O BULE é um site muito organizado, acho que aí está um dos elementos de sucesso, temos um cronograma bem definido e a regularidade também conta para quem acompanha. O BULE hoje é a casa da minha literatura. E ela converge na medida que dali sai e é divulgada para quem segue o site, o twitter, facebook d’O BULE e que no final esse mesmo leitor atingido pela imensa divulgação acaba esbarrando comigo nesses mesmo lugares, ou seja tenho um retorno muito rápido. Há muito pouca coisa que não coloco na internet, mas simplesmente porque quero também apresentar algo inédito e exclusivo daquilo que apresento na internet para quando sair o novo livro, que está em fase de finalização. Não separo 'isso é para a rede', 'isso é para o livro impresso', o critério para ambos é o estabelecido por mim de que 'essa dá pra ser lido'.

Paula: Eu acabei de ler seu livro, e ele é uma festa de referências cinéfilas, musicais, retrôs, literárias... E o que começa com um certo pudor, como textos mais puxados para uma espécie de 'Cães de aluguel', vai se tornando meio 'Almodóvar' pela metade, e depois vira cerebral feito um Woody Allen, chega a citar o The Cure, e fecha com o nonsense meio KillBill, com uma alegoria própria de um Tarantino. Enfim, você reúne tudo o que a geração 70 e 80 viu até hoje. Foi esse o efeito que você quis no livro, essa mixagem de influências?

Mauro: Pudor?! Acho que não. Eu apenas fui escrevendo, só depois de muitas histórias que eu pensei em juntar e dar o nome de 'livro', pelo menos as que se aproximavam de alguma forma, e assim nasceu a ideia do 'De vermes...' só depois fui pensar numa coluna, algo que pretendesse estruturar as histórias, apenas ai que eu pensei um pouco mais como um projeto. Sairam histórias, outras foram criadas especialmente para o lugar de alguma; grande parte delas reescritas. Espero que tenha achado o livro no mínimo... instigante. As reações sobre ele são divertidas, com a maioria das pessoas, tentando encontrar um meio termo entre o Mauro que elas conhecem e o Mauro que escreveu 'aqueles' contos. E sim, sob alguns
aspectos ele é uma 'festa de referências' e você nem citou todas, ainda há as histórias em quadrinhos, os videogames... E vi muita televisão na minha vida! Ficava vidrado horas assistindo a filmes de todas as épocas, não só dos anos 70 e 80, sou grande fã dos filmes dos anos 40, sou fã dos Irmãos Marx, Frank Capra, o noir, Kurosawa e Hitchcock, por exemplo; enlatados americanos... desenhos animados, aqueles documentários de animais. Eu via tudo! Acho que boa parte da nossa geração tinha na tevê uma babá. Então eu estou impregnado dessa coisa toda... meio pop, meio descartável, veloz, apontando para várias possibilidades, olhares e linguagens, maneiras de contar. E complementando o que acabei de dizer, simplesmente eu não quis escamotear essas referências: elas estão lá. Algumas são muito evidentes outras, nem tanto (e outras eu mesmo esqueci!). Então, eu vejo o 'De vermes...' talvez como um livro noir, tarantinesco, fonsequiano, ou um livro peculiar sobre formas de relacionamento e que você aproximou de Almodóvar; ou ainda o que acho mais interessante e que foge um pouca as obviedades e flerta com o insólito e até um quê de nonsense, mas não acho que se aproxime de Kill Bill. Então, a minha ideia não foi fazer essa mixagem de referências, apenas não me preocupei com elas. O que eu me preocupei em criar as histórias, em criar personagens e colocá-los diante de situações limites e ver como eles se sairiam e por consequência, como eu resolveria esse quebra-cabeças. Se alguma eventual referência está lá e é só tempero, cobertura, a massa mesmo, já estava pronta.

Paula: Quando li o texto de Ken Auletta na New Yorker (aqui divulgado pelo Digestivo Cultural), cujo título é Publique eletronicamente ou pereça, lembrei imediatamente de você. Qual sua opinião sobre a publicação eletrônica, ou os epubs?

Mauro: Sabe de uma coisa? Eu gosto dessas frases dramáticas e de efeito, nesses momentos de evolução tecnológica, parece que elas são mais comuns: 'O livro vai acabar!' e etc., seus autores precisam chamar alguma atenção para aquilo querem que mude, não é mesmo? Eu torço para que a publicação eletrônica se popularize (e rápido). Já leio muito ‘eletronicamente’, só não de maneira tão ‘portátil’ quanto eu gostaria, pda’s e celulares são pequenos e não muito confortáveis pra mim, mas um e-reader ou iPad tenho certeza que vou adorar; a guerra mesmo é pelo suporte, a forma que a leitura vai tomar, gosto de pensar nas possibilidades dela, da hiperliteratura, da leveza, velocidade, enfim, acompanho. Escrevi algo parecido,  recentemente, n’O BULE. Do ponto de vista do escritor, só temo que as ePubs tornem-se guetos de autores iniciantes que não conseguiram espaço nas editoras tradicionais e que fiquem presos só a essa forma de publicação. Quanto às próprias editoras, será um bom começo para as novas também, um tubo de ensaio, antes de migrarem para publicação formal, mas o que acho natural é que as editoras manterão essas duas frentes: digital e tradicional. Distribuindo os dois formatos, como acontece, por exemplo, com os estúdios de cinema na relação cinema/DVD. E isso já está acontecendo aqui, recentemente algumas editoras se juntaram para criar uma distribuidora de livros digitais. É espero que dentre outras coisas signifique preços acessíveis.