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Créditos: Tereza Yamashita

Nelson de Oliveira é o que se pode chamar de um escritor prolífico. Mas apenas um rótulo não é suficiente para defini-lo: não lhe cabe a famosa distinção entre escritor-acadêmico x escritor-não-acadêmico, simplesmente porque ele percorre os dois caminhos de forma simultânea. Nascido em 1966, começou a publicar em 1997 e daí não parou mais. Tem dezenas de livros publicados em todos os gêneros, acaba de se titular Doutor pela USP e é colaborador permanente do suplemento Ideias (JB) e Jornal Rascunho (veja o decálogo de Nelson). Aqui, ele fala sobre uma de suas paixões literárias, e que a crítica nem sempre vê com bons olhos - a ficção científica - e se revela um otimista inveterado e excelente inventor de realidades.


 


Paula: O Portal 2001 é o quinto dos seis portais cuja leitura remete a lugares/momentos além-da-imaginação. Em certas religiões e seitas, bem como em várias histórias e simbologias, essa figuração do portal (que pode ser feito de tijolos, espelhos, cachoeiras, fogo, energia etc.) a ser atravessado também é recorrente. No entanto, sabemos que a literatura, considerada em si mesma, já é um portal. Você acha que a ficção científica possa ser, então, uma concentração dessa ideia de travessia, de transmigração, tornando-se assim uma literatura quase profética? E, desdobrando essa ideia, o escritor de FC seria um profeta contemporâneo?

Nelson: Gosto bastante da ideia de portal como uma passagem para outra realidade mais instigante do que a nossa. Essa passagem pode ser de natureza mágica, poética ou tecnológica, ou uma mistura das três. Você está certa: a arte e a literatura são excelentes e antiqüíssimos portais. O projeto coletivo que meus amigos e eu estamos concretizando, o Projeto Portal, é uma celebração da imaginação literária. Somos apaixonados por ficção científica e fantasia. Mas, respondendo à segunda parte da questão, eu acredito que a principal função do escritor de ficção científica não é a de prever o futuro, mas de encantar o leitor com uma boa ficção sobre o futuro. O escritor de FC não pode esquecer, jamais, sua real natureza. Todo escritor, não importa o gênero literário, não importa se contista ou poeta, é um inventor de realidades. Um bom conto ou um bom romance de FC é uma mistura harmônica de elementos narrativos e científicos. Se a pessoa não domina as ferramentas da prosa literária, um refinado conhecimento científico raramente dá origem a uma narrativa interessante. Nesse caso, é melhor escrever um artigo, em vez de um conto.

Paula: No prefácio deste quinto Portal, você reconhece escrever para uma “pequena confraria de leitores especiais”, e os denomina “eleitos, raros e loucos” (engraçado, na poesia também é assim... rs). Sabemos, contudo, que milhões de leitores voltaram a se debruçar sobre vampiros e lobisomens, literatura antiga, recorrente nos idos do século XIX. Sabemos também que, de 1980 a 2000, houve uma safra bastante produtiva de FC. Nota-se, portanto, uma sazonalidade do interesse pelo gênero. Você — como escritor de expressão no cenário literário brasileiro — acredita que esse interesse, hoje em dia um tanto reduzido, possa retornar com força?

Nelson: A ficção científica sempre esteve em evidência no mundo anglófono. Os fãs, principalmente nos Estados Unidos e no Reino Unido, nunca deixaram o gênero perder prestígio. Lá fora o sistema funciona bem, organizando convenções e promovendo ótimas premiações. Sucesso de público e de crítica. Não só na literatura. A maior parte das superproduções do cinema, como Avatar, 2012 e Star trek, pertence a esse gênero. No Brasil a história é um pouco diferente. Hoje a FC brasileira está restrita a um grupo quase invisível, cujos livros, publicados sempre por pequenas editoras, raramente são divulgados na grande imprensa. Eventos regulares, como o Fantasticon e o Invisibilidades, têm movimentado a comunidade, expondo melhor os nossos escritores. O número de leitores é grande, mas a maioria não lê o autor brasileiro, preferindo os clássicos estrangeiros. Puro preconceito. Mas sou otimista. Sinto que o cenário está mudando pra melhor. Faz poucos anos que comecei a me envolver com a FC brasileira, mas nesse curto espaço de tempo vi o número de autores, editores e leitores aumentar significativamente. Algo está acontecendo.

Paula: Ainda sobre o público leitor de FC, há uma frase repetida como um mantra que diz: “homens não leem”. Então, se as mulheres também não leem FC porque preferem romances e biografias, quem afinal lê ficção científica?

Nelson: Na verdade, todos leem, todos escrevem. Homens e mulheres. A FC brasileira já está chegando com muita força até nas faculdades de Letras. Isso é sinal de que o preconceito com a produção brasileira está começando a ceder? Parece que sim. Conheço vários autores que estão cursando o mestrado e o doutorado, e preparando dissertações e teses sobre a produção tupiniquim. Até mesmo os brasilianistas já estão mais atentos a esse filão de nossa literatura. A pesquisadora norte-americana Mary Elizabeth Ginway, por exemplo, já publicou dois livros sobre o assunto: Ficção científica brasileira (2005) e Visões alienígenas (2010).

Paula: Sabemos que diversos escritores de ficção científica anteviram as modificações que o futuro traria à humanidade. Isso seria impossível se os escritores não tivessem um bom fundamento na área da ciência e tecnologia. De outro lado, às vezes bons escritores acham que escrever ficção científica é meter uma nave espacial no meio de um romance urbano. Você acha que o escritor de ficção científica por excelência precisa ter um diferencial na sua base de formação, ou seja, um pé fincado na área científica e tecnológica?

Nelson: O escritor de ficção científica não precisa ser um cientista. Ele não precisa ser um neurologista, um biólogo, um físico teórico ou um engenheiro aeroespacial. Mas é claro que ele precisa curtir todas essas áreas do conhecimento. O mesmo vale para os leitores de FC. Eu sempre apreciei as revistas e os livros de divulgação científica. Gosto bastante dos livros do Carl Sagan, do Richard Dawkins, do Steven Johnson e de outros especialistas que escrevem sobre informática, cosmologia, evolução, física quântica, nanotecnologia etc. Esses assuntos me interessam muito. Mas, repito, os bons contos e os bons romances de ficção científica não são feitos apenas disso. São feitos de linguagem, de fantasia poética, de narradores e personagens cheios de conflitos. O erro mais freqüente que os autores sem talento cometem, ao escrever FC, é o excesso de descrições e explicações sobre o futuro. É insuportável. Quando devia ter escrito um artigo científico, o sujeito escreve um conto chatíssimo, maçante, explicando cada parafuso, cada comportamento, não deixando nada para a imaginação do leitor. O resultado é uma narrativa em tom impessoal (falsamente científico), cheia de notas internas de rodapé, sem valor literário.

Paula: Apesar de sua sólida formação acadêmica, você repara que a “crítica literária contemporânea é indiferente ao leitor”. Na outra ponta, os livros best-sellers, que vendem milhões, são indiferentes à crítica literária contemporânea. Esse jogo de forças te incomoda, ou você também é indiferente a ele?

Nelson: O cenário é um pouco mais complicado, porque de vez em quando aparece um best-seller de excelente qualidade. Não é comum, mas às vezes acontece. Às vezes também acontece de a crítica acadêmica louvar uma obra medíocre. Prosa e poesia herméticas costumam ser elogiadas porque certos críticos acreditam que o hermetismo é sempre um sinal de complexidade, de profundidade. O fato é que no mundo literário há dois pesos e duas medidas. Podemos falar em duas elites: a acadêmica e a da literatura de gênero. Cada elite tem o seu próprio critério de valor. O maior pecado que os membros de cada grupo cometem é avaliar as obras do grupo adversário com o critério errado. Avaliar as obras da literatura de gênero (policial, suspense, fantasia, ficção científica) com o critério da elite acadêmica gera todo tipo de mal-entendido. Avaliar as obras da alta literatura com o critério da elite da literatura de gênero também. Esse jogo de forças me incomoda um pouco. Mas eu procuro pôr as coisas sempre em perspectiva. Elite acadêmica, elite da literatura de gênero, ah, daqui a cem mil anos o mundo será diferente e nada disso terá muita importância (rs).