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- Gregório Filho, Francisco. Ler e contar, contar e ler: caderno de histórias. Rio de Janeiro: Letra capital, 2008.

Francisco Gregório Filho é uma figura antológica do Rio de Janeiro. Recentemente homenageado pela I Bienal da Floresta, do Livro e da Literatura, no Acre, É ele quem promove uma das melhores oficinas de contação de histórias no Paço Imperial do Rio de Janeiro, ensinando o ofício, por dentro e por fora.

Eu explico. Por dentro, Gregório ensina tudo o contador de histórias a reparar na gravidade e na importância do seu ofício. Por fora, o mestre exibe sua forma de contar histórias, mostrando um dos tantos modelos para que seu aprendiz se inspire nele e possa continuar à sua maneira.

Assim é também o livro 'Ler e contar, contar e ler'. A princípio, imaginei que nele estavam apenas as histórias da infância de Francisco, as histórias que mais o emocionaram, ou as que ele ouviu das pessoas mais importantes que atravessaram seu curso. No entanto, assim como nas apresentações de Gregório, o livro tem duas faces.

A primeira, do ofício externo do contador, apresenta os textos compilados de histórias folclóricas menos famosas, mas igualmente eternas e belas. No início de cada história, uma página colorida, uma ilustração e, por fim, o registro de onde ela foi colhida, muitas do norte do Brasil.

São ao todo dez histórias, como ele diz, sem fronteiras de idade, milenares, medievais, folclóricas, indígenas, entre elas 'Barba azul', 'Aquele grão de areia', 'Lua mulher, homem sol', 'Cabelos de ouro', 'O nascimento das estrelas', e a famosa 'Laurinda', como ele mesmo diz, linda linda.

Ao fim da primeira parte, um texto de Eliana Yunes enriquece o livro, abordando a importância dos contadores como mediadores da leitura e transmissores de conhecimento, suavidade e beleza para crianças ainda na fase da pré-alfabetização, como para grupos excluídos da cultura letrada.

Na segunda face do livro, nas páginas em laranja, Gregório apresenta uma espécie de Manual para o contador-aprendiz, com textos quase-poéticos de sua autoria como de outras pessoas escolhidas. Textos que inspiram, que provocam, que incomodam, num incômodo bom, desses que fazem refletir e convencem a fazer as opções certas, a despeito dos seus custos e desafios.

Como Gregório nos conta de seu avô, com a beleza e a convicção da verdade, "O olho precisa encontrar o olho do outro. Olho no olho. O olhar estabelecendo a confiabilidade do diálogo. O olhar do outro e o alimento solidário para eu me por de frente, encontrando a respiração do outro. Necessito do olhar, do olho do outro no meu olho. (...) O olhar ajuda a dizer e, principalmente, ajuda a ouvir. Os olhos ajudam a buscar o significado nos guardados do coração; (...) A voz com o olhar, partilhando horizontes em dores escuras, sombras de desencontros, desilusões profundas e achados iluminados. (...) Só posso contar uma história encontrando o olhar do outro; para minha voz poder repercutir; tomar dimensão."

E é isso o que Gregório faz com esse livro singular. Ele pede o nosso olhar, ainda que distante, ainda que pousado no preto e branco das letras, e então se põe de frente, inteiro, encontra nossa respiração e sua voz repercute e ecoa dentro de cada um de nós.  

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