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- Paes, Victor. O óbvio dos sábios. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2007.

 

Victor Paes pauta sua poesia pelo teatro. 'O óbvio dos sábios', seu primeiro livro de poesia, publicado em 2007, é montado sobre o tablado numa espécie de formato 'stand-up poetry', o que por si só já é um estímulo desafiador.

Claro que esse óbvio de sábios pede para ser decifrado pelos não-sábios que os leem. Esta é apenas a porta de entrada, a chamada inicial para o duelo (ou dueto) que vai se montar dentro e fora do livro. Como Fernando Bonassi pede, na 'Introdução ao óbvio', eu começo abrindo o que tenho nas mãos.

Eu abro. Estruturado em dois tempos, o livro em seu primeiro ato (ou Tempo) vem formado de duelos que Victor e seu leitor vão atravessando, um a um, até que se chegue a um tempo de paz, ou seja, um tempo sem duelos, o Tempo 2.

Várias de minhas perguntas ficaram sem resposta. Como toda mulher, a princípio fiquei bastante irritada por não descobrir 'o que o autor está pensando'. Seria possível que talvez não existisse apenas uma resposta, e que eu tivesse de procurá-las em mim mesma? Seria possível que talvez não houvesse resposta alguma, já que se eu a desvendasse, isso faria de mim uma sábia? Assertivas provavelmente inválidas. Perdi para a esfinge e agora receio ser devorada. Sinto uma vontade infinita de chamar Fernando, ou até Victor, aflita para que eles me expliquem 'a complexidade do que é tão simples.' e que me fugiu, desestruturando um mundo de ideias e conceitos simples e óbvios.

No entanto, algumas janelas se abriram, e talvez só isso já tenha valido minha travessia. Apesar de não decifrar o livro como um todo, reparo sentidos no texto, sim, e eles aparecem como lampejos entre uma ou outra proposição desnorteadora. Entre fragmentos que despistam, eis que a poesia surge, confundindo os olhos do leitor.

Ora Victor tece uma colcha de patchwork, ora exibe aforismos enigmáticos e contundentes como na cena que estrutura e revela o ofício de ator:


'falar por línguas alheias
e chorar de cansaço ao fim do dia'

ou em sua visão de uma tarde de junho anoitecendo:

'1
a tarde
de seus muitos sóis
atravessa o parque
toma um balanço
e anoitece...
2
junho profundo
1
a cada piscar do vaga-lume
um pingo de sombra'


e depois num duelo no telhado:

'2
reformar a casa é abri-la
pra tentar descobrir outra dentro
1
não eram os discos de seu vinil
basta lembrar:
antigamente
a vida chiava'
(...)
'1
rumor nas prateleiras:
a porta está aberta' 
 

Anderson Fonseca, autor da primeira resenha do livro e de entrevista com o autor, ambas publicadas na revista Cronópios, diz acreditar que 'o livro inteiro é apenas um único poema'. Na verdade, assim como a vida pode ser vista como una, apesar de didaticamente dividida em dias, meses, anos e fases, ou o teatro pode ser visto como único, ainda que dividido em capítulos e cenas, também os livros são concebidos numa proposição una: hipótese e conclusão.

Concordo com Anderson sobre a provável unidade de 'O óbvio...'. Contudo, não senti nessa unidade a simples transformação interna do poeta, mas sua verdadeira peregrinação, de tempo e vida e consciência, numa espécie de jornada montada por momentos de lucidez, externa e interna:

'1
branco amarelo
2
quarar a grama de preguiça:
1
branco indelével
2
corar o ar de segredos:
1
branco inevitável
2
questão de espalhar mármores
1
branco
2
branco
(...)
2
catar conchas
é retocar o mar...'


Na verdade, a graça de 'O óbvio...' é justamente desfolhar sua desobviedade, já que não vivemos mais nos tempos dos sábios. A delícia do livro está em re-descobrir que 'a mão espalmada não pára o tempo', que 'a cigarra revela o som do sol', que 'todo céu, por mais azul, tem nuvens dentro' e que certamente, no hemisfério sul, todo junho é profundo.

Depois de ler Victor, fecho o livro e respiro fundo. Não o decifrei, mas não respiro da mesma forma que antes.

Agora, eu aprendi a chamar o vento.

 

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