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Críticas

Críticas, resenhas e outras idéias

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- Vários autores. Um fio de prosa. Org. equipe Global Editora. São Paulo: Global, 2004. (Coleção antologia de contos e crônicas para jovens)

 

Quem tem filhos na faixa dos 8 aos 12 anos sabe a dificuldade que é encontrar uma literatura boa e que eles gostem. As livrarias dificultam a tarefa, oferecendo livros belíssimos com um conteúdo simples demais, como é o caso de 'O diário de um banana', diários de princesas e outros semelhantes. As escolas também não facilitam: separados por idades, geralmente os livros indicados para a turma que não é criança nem adolescente são um tiro n'água: a gente compra e eles ficam lá, boiando sem rumo por todos os cantos da casa.

'Um fio de prosa' é, com certeza, um livro diferente, e isso já ficou explícito por sua indicação ao Prêmio Jabuti 2005. Primeiro porque reúne os principais nomes da literatura brasileira pós-anos-dourados, como uma espécie de menu-degustação-literária. Segundo, porque as histórias são curtas, o que dá uma sensação de dinamismo, mudança, rapidez, enfim, de que é mais fácil atravessar sua leitura, o que agrada bastante essas crianças que já nascem 'sem tempo'. Finalmente, cada texto concentra a narrativa, o corte, o perfil e a identidade de cada um dos escritores. São histórias inteligentes e isso ajuda bastante na hora de conquistar alguém com tantas outras paixões.

Mario Quintana e Cora Coralina iniciam o livro com contos engraçados, críticos, irônicos. Manuel Bandeira, com seu 'Zeppelin em Santa Teresa' é bem mais longo, mas faz um raio X da pacata vida em Santa Teresa e da esperteza das crianças naqueles longínquos anos 60. Ignácio de Loyola Brandão, Cecília Meirelles e Rachel de Queiroz mapeiam a chegada dos novos tempos, das modernidades ao Rio de Janeiro, entre as construções no centro da cidade, os carros engarrafados e os brinquedos eletrônicos que foram cercando as crianças até o que vemos hoje.

Lygia Fagundes Telles e Marina Colasanti optam por uma narrativa de contornos mais dramáticos, mas não menos sedutoras. E Carlos Drummond de Andrade traz a cereja do bolo, com a irreverência de 'João Brandão adere ao punk'. 

'Um fio de prosa' é um livro iniciático para que o jovem-leitor dessa primeira década do século XXI possa absorver um pouco de cada um desses autores e optar por uma viagem cada vez mais profunda e intensa com aquele autor que lhe proporcione maior inquietude, maior espanto, maior assombro, enfim, um prazer literário especial.

 

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- Paes, Victor. O óbvio dos sábios. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2007.

 

Victor Paes pauta sua poesia pelo teatro. 'O óbvio dos sábios', seu primeiro livro de poesia, publicado em 2007, é montado sobre o tablado numa espécie de formato 'stand-up poetry', o que por si só já é um estímulo desafiador.

Claro que esse óbvio de sábios pede para ser decifrado pelos não-sábios que os leem. Esta é apenas a porta de entrada, a chamada inicial para o duelo (ou dueto) que vai se montar dentro e fora do livro. Como Fernando Bonassi pede, na 'Introdução ao óbvio', eu começo abrindo o que tenho nas mãos.

Eu abro. Estruturado em dois tempos, o livro em seu primeiro ato (ou Tempo) vem formado de duelos que Victor e seu leitor vão atravessando, um a um, até que se chegue a um tempo de paz, ou seja, um tempo sem duelos, o Tempo 2.

Várias de minhas perguntas ficaram sem resposta. Como toda mulher, a princípio fiquei bastante irritada por não descobrir 'o que o autor está pensando'. Seria possível que talvez não existisse apenas uma resposta, e que eu tivesse de procurá-las em mim mesma? Seria possível que talvez não houvesse resposta alguma, já que se eu a desvendasse, isso faria de mim uma sábia? Assertivas provavelmente inválidas. Perdi para a esfinge e agora receio ser devorada. Sinto uma vontade infinita de chamar Fernando, ou até Victor, aflita para que eles me expliquem 'a complexidade do que é tão simples.' e que me fugiu, desestruturando um mundo de ideias e conceitos simples e óbvios.

No entanto, algumas janelas se abriram, e talvez só isso já tenha valido minha travessia. Apesar de não decifrar o livro como um todo, reparo sentidos no texto, sim, e eles aparecem como lampejos entre uma ou outra proposição desnorteadora. Entre fragmentos que despistam, eis que a poesia surge, confundindo os olhos do leitor.

Ora Victor tece uma colcha de patchwork, ora exibe aforismos enigmáticos e contundentes como na cena que estrutura e revela o ofício de ator:


'falar por línguas alheias
e chorar de cansaço ao fim do dia'

ou em sua visão de uma tarde de junho anoitecendo:

'1
a tarde
de seus muitos sóis
atravessa o parque
toma um balanço
e anoitece...
2
junho profundo
1
a cada piscar do vaga-lume
um pingo de sombra'


e depois num duelo no telhado:

'2
reformar a casa é abri-la
pra tentar descobrir outra dentro
1
não eram os discos de seu vinil
basta lembrar:
antigamente
a vida chiava'
(...)
'1
rumor nas prateleiras:
a porta está aberta' 
 

Anderson Fonseca, autor da primeira resenha do livro e de entrevista com o autor, ambas publicadas na revista Cronópios, diz acreditar que 'o livro inteiro é apenas um único poema'. Na verdade, assim como a vida pode ser vista como una, apesar de didaticamente dividida em dias, meses, anos e fases, ou o teatro pode ser visto como único, ainda que dividido em capítulos e cenas, também os livros são concebidos numa proposição una: hipótese e conclusão.

Concordo com Anderson sobre a provável unidade de 'O óbvio...'. Contudo, não senti nessa unidade a simples transformação interna do poeta, mas sua verdadeira peregrinação, de tempo e vida e consciência, numa espécie de jornada montada por momentos de lucidez, externa e interna:

'1
branco amarelo
2
quarar a grama de preguiça:
1
branco indelével
2
corar o ar de segredos:
1
branco inevitável
2
questão de espalhar mármores
1
branco
2
branco
(...)
2
catar conchas
é retocar o mar...'


Na verdade, a graça de 'O óbvio...' é justamente desfolhar sua desobviedade, já que não vivemos mais nos tempos dos sábios. A delícia do livro está em re-descobrir que 'a mão espalmada não pára o tempo', que 'a cigarra revela o som do sol', que 'todo céu, por mais azul, tem nuvens dentro' e que certamente, no hemisfério sul, todo junho é profundo.

Depois de ler Victor, fecho o livro e respiro fundo. Não o decifrei, mas não respiro da mesma forma que antes.

Agora, eu aprendi a chamar o vento.

 

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- Couto, Mia. O fio das missangas: contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 

Certos livros têm o condão de abreviar silêncios. Outros, no entanto, são capazes de aprofundá-los. Diante dessa dicotomia, Mia Couto mostra bem quais são suas opções. Não lhe bastam palavras para entreter leitores ávidos: Mia busca exprimir o inexprimível, busca dissecar uma parte da mística folclórica de sua terra africana, desfiando-a para que nós possamos catar suas contas, ou melhor, seus preciosos contos. 

Em 'O fio das missangas', publicado originalmente em 2004 e lançado aqui no Brasil (somente) em 2009 pela Companhia das Letras, encontro um despenhadeiro de maravilhamentos, em contos que se revelam quase-parábolas, histórias tecidas em fantasia que apontam proa ao eterno e ao cerne de cada um de nós.

Por 29 vezes, o leitor é posto à prova consigo mesmo, é questionado a cada frase exata, a cada constatação inescapável, a cada parágrafo que se alça ares de estrofe. Como se não bastasse a fundura dos sentimentos, expostos e esmiuçados até que se entreguem aos olhos do leitor, Mia faz uso do rico vocabulário de sua terra, misturado a um português castiço que há muito não ouvimos.

Quase se escuta a voz de cada um dos personagens, sussurrando suas vidas romanescas no lusco-fusco do abajur, à cabeceira da cama. Mia Couto adentra nos silêncios, vinte e nove vezes, e sua palavra é semente que cresce frondosa por dentro, feito uma árvore de poesia.

Falo em poesia porque as palavras de Mia guardam surpresas, novas significações, ricos achados. Bastam algumas poucas linhas de sua prosa para que o leitor penetre em cada narrativa e a ela se una com força e fé. O escritor, filho de um poeta e uma contadora de histórias, domina sereno um realismo mágico e único que se derrama em cenas marcantes e inesquecíveis, como em 'Inundação', 'O homem cadente', ou 'A infinita fiadeira'. 

Nesse seu 23º livro, apesar do escritor exibir toda sua maturidade literária, ele próprio revela em entrevista dada por ocasião do lançamento no Brasil, a dificuldade cada vez maior nesse rasgar do peito em confronto consigo mesmo, ato essencial que precede e justifica sua escrita.

'O fio das missangas' é verdadeiramente um regalo. No entanto, longe de ser uma bijuteria barata para se exibir entre espelhos e convivas, dessas que descascam ou perdem a cor, as missangas de Mia são joias, daquelas que as mulheres escondem bem escondidas num cofre ou fundo de gaveta, para com ela se deliciarem em seus momentos mais solitários, mais silenciosos.

É que não se trata de um gosto passageiro ou descompromissado. Ler Mia Couto é um prazer refinado, único e perene, próprio de quem sabe pedir mais.

 

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- Martins, Jorge Roberto. Luas de Paquetá. Rio de Janeiro: Altadena, 2009.


Quantas luas foram necessárias para que Paquetá fosse esquecida? Feito uma casa que se abandona aos poucos, feito um sítio que os herdeiros mantêm apenas na memória, Paquetá se distancia nas águas e se perde na lembrança, lentamente.

Jorge Roberto Martins não se conteve e tentou trazê-la de volta. Lançou suas cordas e redes, na fé que a correnteza das águas não a levasse de vez. Inconformado com seu destino trágico e silencioso, Jorge Roberto reconstruiu-a nas páginas de 'Luas de Paquetá', desde o início do século XX, mais precisamente nos idos de 1920, quando Paquetá era morada de luxo, destino de veraneio de toda a elite cultural que soergueu o Brasil até 1960 e que, depois disso, já não tinha mais forças para lutar.

Como Jorge conta, quando Búzios sequer existia e Cabo Frio era ainda uma aldeia pesqueira, Paquetá era suspirada por músicos e poetas, médicos, freiras e pintores, cantada pelo motor dos iates e lanchas que ali aportavam. Antes de Brigitte Bardot descobrir Búzios, era Luz del Fuego que desamarrava o biquíni e inventava praias de nudismo.  Na ilha viva e exuberante de pássaros, houve espaço para clubes de futebol, compositores de marchas carnavalescas, hinos e tagos-fados, escolas de samba, cinemas,
como uma extensão de Copacabana. Paquetá era uma festa.

No entanto, ir hoje a Paquetá, especialmente em finais de semana, é uma indignidade. É um pesadelo real e surreal. É uma submissão a todo tipo de constrangimentos, desde a dupla fila que se forma debaixo do sol, antes para a compra do bilhete em apenas (e apenas) 2 caixas, e depois, para passar na única (!!!) roleta de 40 centímetros de largura, que autoriza a entrada dos passageiros à plataforma de ingresso na barca.

Dentro da barcaça de metal e esquadria de madeira, a mesma de 1980 (e lá se vão 30 longos anos), o povo derrete e as crianças desidratam. Em pé, os passageiros que lotam os corredores e as escadas não têm sequer onde segurar, enquanto o chão se enche da água que brota dos isopores que trazem refrescos. Pelo menos, assim ninguém desmaia no percurso de 60 minutos. Nem adianta procurar: não há lixeiras.

Os aerobarcos foram desativados e não há outra alternativa de transporte. Por melhor que for o destino dentro de Paquetá, a criatura precisará pagar seus pecados, de atos-pensamentos-e-omissões, naquele inferno vivo, ao som de bebês esgoelando de calor.

Quando a multidão salta da barca, Paquetá suspira e agoniza. O dinheiro não chega junto. Quem vai para lá no domingo leva o piquenique, leva o isopor, e não ajuda a ilha a sair do atoleiro. Como vejo depois, num site de consultoria em marketing que conferiu o perfil dos usuários, a linha inaugurada em 1877 serve ao público C e D. Daí me ponho na pele da concessionária: 'Para quê investir?'. 

Volto ao livro, o livro de Jorge Roberto que entrevê competições de nadadores e iates, o livro que exibe belos e dourados rapazes pulando em piruetas do teto das barcas, a juventude desafiando marinheiros e policiais. O livro brilha em beleza e requinte, reluz de alegria. Jorge conta de cada morador ilustre, de cada família que fez do Rio o que ele ainda é, e de Paquetá, um pedaço importante dessa história.

Hoje a água é podre mesmo com toda a propalada despoluição. Uma espuma marrom brota na superfície, enquanto crianças se arriscam nas águas imundas. As crianças de agora desafiam as doenças, hepatites, diarreias e meningites. Muito mais corajosas, elas, sem dúvida. E nenhuma autoridade apita para impedir o risco.

Jorge Roberto faz força, junto com algumas dúzias de moradores, alguns deles filhos de ilustres, que teimam em permanecer na ilha. Enquanto cortam os flamboyants, ele escreve, travando sua luta contra os moinhos de vento, a favela e o alcoolismo que invadem a ilha.

Paquetá é um bairro despojado de tudo. Esquecido. Mais despojado e esquecido do que os demais, que não tiveram a honra nem a oportunidade de alcançar seu brilho de outrora.

A beleza que Jorge Roberto Martins narra serve de testemunho. Testemunho dos delitos inafiançáveis, verdadeiros crimes de lesa-pátria, praticados no Município e no Estado do Rio. Testemunho da perniciosidade dos que assumiram de 1970 até hoje. Testemunho do que, em breve, se tornará irrecuperável.

Estive, no fim de 2009, em Colônia de Sacramento, no sopé do Uruguai. Um lugar que o inverno aflige e fustiga durante quatro longos meses. E Colônia exibia a culinária sofisticada do restaurante La Florida, onde seu dono e chef Carlos Bidanchon ali cozinha há 40 anos. Colônia exibia suas construções preservadas, sua antiga arena de touradas, esplêndida arquitetura espanhola, mansões de janelas enormes à beira da foz, museus iluminados à noite pela luz do tango e pela dança de luz dos tocheiros.

Para chegar a Colônia, uma barca espetacular, com ar-condicionado, restaurantes, lanchonetes, expressos e cappuccinos, Duty Free (sim, pois se atravessa o rio entre a Argentina e o Uruguai), comissárias de bordo, marinheiros e, como se não bastasse, Nintendo Wii para as crianças brincarem. Sessenta minutos era pouco ali dentro.

E o Uruguai não chega nem perto do que o Rio foi, do que o Rio é. E por um momento, eu senti vontade de que Paquetá fosse algo semelhante a Colônia, uma cereja do nosso bolo.

Enfim. Não é.

Jorge Roberto teve um ato de coragem, esse de escrever sobre a Paquetá que se perdeu, silenciosamente, debaixo da lua, sobre a Paquetá-Atlântida que afundou na Baía. Para lá, se voltam apenas olhares de loucos investidores, seduzidos pela oportunidade de comprar um passado glamouroso por alguns trocos, ou dos desprovidos de tudo, que encontram na barca uma fuga de sua parca existência, uma refresco longe de seus conjugados por alguns reais, e levam chope, frango e sanduíche para aumentar o gasto dos paquetaenses e o trabalho de quem despolui a baía.

Digo mais, não só a ilha se perde aos poucos.

Tristemente, o Rio de Janeiro perde, os cariocas perdem, os turistas perdem e a tristeza impera enquanto retorno naquela barca-suplício, de cabeça baixa ante as minhas pequenas filhas que dormem e suam, desfeitas pela quentura. Estavam de biquíni, mas não puderam se refrescar. Perguntaram o motivo, e eu lhes respondi ríspida, sentindo um amargo travando a garganta: '- A água está podre, não vê?', e retornei ao silêncio. De cabeça baixa ante os transatlânticos aportados no Píer Mauá, enquanto eu atracava em madeirames esbranquiçados e partidos, em estruturas metálicas amassadas e descascadas. Rasa d'água, admirando o espetáculo geográfico do Rio de Janeiro no horizonte, enquanto os aviões desciam em rasante ao Santos Dumont. Eu teria chorado, mas quando a tragédia é muita, chorar perde o sentido.

Depois de ler 'Luas de Paquetá', com a suavidade de seus registros, como o é o 'Cemitério dos Pássaros' ou a lenda da Maria Gorda, baobá que nasceu entre mistérios e crendices, fico como que mareada e sinto um estupor, uma vontade triste de chegar a ver Paquetá novamente como Jorge a descreveu, entre sóis e luas, entre brilhos e reflexos do que o povo do Rio pode vir a se tornar. Ou simplesmente voltar a ser.

 

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- Gregório Filho, Francisco. Ler e contar, contar e ler: caderno de histórias. Rio de Janeiro: Letra capital, 2008.

Francisco Gregório Filho é uma figura antológica do Rio de Janeiro. Recentemente homenageado pela I Bienal da Floresta, do Livro e da Literatura, no Acre, É ele quem promove uma das melhores oficinas de contação de histórias no Paço Imperial do Rio de Janeiro, ensinando o ofício, por dentro e por fora.

Eu explico. Por dentro, Gregório ensina tudo o contador de histórias a reparar na gravidade e na importância do seu ofício. Por fora, o mestre exibe sua forma de contar histórias, mostrando um dos tantos modelos para que seu aprendiz se inspire nele e possa continuar à sua maneira.

Assim é também o livro 'Ler e contar, contar e ler'. A princípio, imaginei que nele estavam apenas as histórias da infância de Francisco, as histórias que mais o emocionaram, ou as que ele ouviu das pessoas mais importantes que atravessaram seu curso. No entanto, assim como nas apresentações de Gregório, o livro tem duas faces.

A primeira, do ofício externo do contador, apresenta os textos compilados de histórias folclóricas menos famosas, mas igualmente eternas e belas. No início de cada história, uma página colorida, uma ilustração e, por fim, o registro de onde ela foi colhida, muitas do norte do Brasil.

São ao todo dez histórias, como ele diz, sem fronteiras de idade, milenares, medievais, folclóricas, indígenas, entre elas 'Barba azul', 'Aquele grão de areia', 'Lua mulher, homem sol', 'Cabelos de ouro', 'O nascimento das estrelas', e a famosa 'Laurinda', como ele mesmo diz, linda linda.

Ao fim da primeira parte, um texto de Eliana Yunes enriquece o livro, abordando a importância dos contadores como mediadores da leitura e transmissores de conhecimento, suavidade e beleza para crianças ainda na fase da pré-alfabetização, como para grupos excluídos da cultura letrada.

Na segunda face do livro, nas páginas em laranja, Gregório apresenta uma espécie de Manual para o contador-aprendiz, com textos quase-poéticos de sua autoria como de outras pessoas escolhidas. Textos que inspiram, que provocam, que incomodam, num incômodo bom, desses que fazem refletir e convencem a fazer as opções certas, a despeito dos seus custos e desafios.

Como Gregório nos conta de seu avô, com a beleza e a convicção da verdade, "O olho precisa encontrar o olho do outro. Olho no olho. O olhar estabelecendo a confiabilidade do diálogo. O olhar do outro e o alimento solidário para eu me por de frente, encontrando a respiração do outro. Necessito do olhar, do olho do outro no meu olho. (...) O olhar ajuda a dizer e, principalmente, ajuda a ouvir. Os olhos ajudam a buscar o significado nos guardados do coração; (...) A voz com o olhar, partilhando horizontes em dores escuras, sombras de desencontros, desilusões profundas e achados iluminados. (...) Só posso contar uma história encontrando o olhar do outro; para minha voz poder repercutir; tomar dimensão."

E é isso o que Gregório faz com esse livro singular. Ele pede o nosso olhar, ainda que distante, ainda que pousado no preto e branco das letras, e então se põe de frente, inteiro, encontra nossa respiração e sua voz repercute e ecoa dentro de cada um de nós.  

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Prova de poesia

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Minha alma...
as tardes ...
quem dera ...
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