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Escrito por Paula Cajaty
- Martins, Jorge Roberto. Luas de Paquetá. Rio de Janeiro: Altadena, 2009.
Quantas luas foram necessárias para que Paquetá fosse esquecida? Feito uma casa que se abandona aos poucos, feito um sítio que os herdeiros mantêm apenas na memória, Paquetá se distancia nas águas e se perde na lembrança, lentamente.
Jorge Roberto Martins não se conteve e tentou trazê-la de volta. Lançou suas cordas e redes, na fé que a correnteza das águas não a levasse de vez. Inconformado com seu destino trágico e silencioso, Jorge Roberto reconstruiu-a nas páginas de 'Luas de Paquetá', desde o início do século XX, mais precisamente nos idos de 1920, quando Paquetá era morada de luxo, destino de veraneio de toda a elite cultural que soergueu o Brasil até 1960 e que, depois disso, já não tinha mais forças para lutar.
Como Jorge conta, quando Búzios sequer existia e Cabo Frio era ainda uma aldeia pesqueira, Paquetá era suspirada por músicos e poetas, médicos, freiras e pintores, cantada pelo motor dos iates e lanchas que ali aportavam. Antes de Brigitte Bardot descobrir Búzios, era Luz del Fuego que desamarrava o biquíni e inventava praias de nudismo. Na ilha viva e exuberante de pássaros, houve espaço para clubes de futebol, compositores de marchas carnavalescas, hinos e tagos-fados, escolas de samba, cinemas,
como uma extensão de Copacabana. Paquetá era uma festa.
No entanto, ir hoje a Paquetá, especialmente em finais de semana, é uma indignidade. É um pesadelo real e surreal. É uma submissão a todo tipo de constrangimentos, desde a dupla fila que se forma debaixo do sol, antes para a compra do bilhete em apenas (e apenas) 2 caixas, e depois, para passar na única (!!!) roleta de 40 centímetros de largura, que autoriza a entrada dos passageiros à plataforma de ingresso na barca.
Dentro da barcaça de metal e esquadria de madeira, a mesma de 1980 (e lá se vão 30 longos anos), o povo derrete e as crianças desidratam. Em pé, os passageiros que lotam os corredores e as escadas não têm sequer onde segurar, enquanto o chão se enche da água que brota dos isopores que trazem refrescos. Pelo menos, assim ninguém desmaia no percurso de 60 minutos. Nem adianta procurar: não há lixeiras.
Os aerobarcos foram desativados e não há outra alternativa de transporte. Por melhor que for o destino dentro de Paquetá, a criatura precisará pagar seus pecados, de atos-pensamentos-e-omissões, naquele inferno vivo, ao som de bebês esgoelando de calor.
Quando a multidão salta da barca, Paquetá suspira e agoniza. O dinheiro não chega junto. Quem vai para lá no domingo leva o piquenique, leva o isopor, e não ajuda a ilha a sair do atoleiro. Como vejo depois, num site de consultoria em marketing que conferiu o perfil dos usuários, a linha inaugurada em 1877 serve ao público C e D. Daí me ponho na pele da concessionária: 'Para quê investir?'.
Volto ao livro, o livro de Jorge Roberto que entrevê competições de nadadores e iates, o livro que exibe belos e dourados rapazes pulando em piruetas do teto das barcas, a juventude desafiando marinheiros e policiais. O livro brilha em beleza e requinte, reluz de alegria. Jorge conta de cada morador ilustre, de cada família que fez do Rio o que ele ainda é, e de Paquetá, um pedaço importante dessa história.
Hoje a água é podre mesmo com toda a propalada despoluição. Uma espuma marrom brota na superfície, enquanto crianças se arriscam nas águas imundas. As crianças de agora desafiam as doenças, hepatites, diarreias e meningites. Muito mais corajosas, elas, sem dúvida. E nenhuma autoridade apita para impedir o risco.
Jorge Roberto faz força, junto com algumas dúzias de moradores, alguns deles filhos de ilustres, que teimam em permanecer na ilha. Enquanto cortam os flamboyants, ele escreve, travando sua luta contra os moinhos de vento, a favela e o alcoolismo que invadem a ilha.
Paquetá é um bairro despojado de tudo. Esquecido. Mais despojado e esquecido do que os demais, que não tiveram a honra nem a oportunidade de alcançar seu brilho de outrora.
A beleza que Jorge Roberto Martins narra serve de testemunho. Testemunho dos delitos inafiançáveis, verdadeiros crimes de lesa-pátria, praticados no Município e no Estado do Rio. Testemunho da perniciosidade dos que assumiram de 1970 até hoje. Testemunho do que, em breve, se tornará irrecuperável.
Estive, no fim de 2009, em Colônia de Sacramento, no sopé do Uruguai. Um lugar que o inverno aflige e fustiga durante quatro longos meses. E Colônia exibia a culinária sofisticada do restaurante La Florida, onde seu dono e chef Carlos Bidanchon ali cozinha há 40 anos. Colônia exibia suas construções preservadas, sua antiga arena de touradas, esplêndida arquitetura espanhola, mansões de janelas enormes à beira da foz, museus iluminados à noite pela luz do tango e pela dança de luz dos tocheiros.
Para chegar a Colônia, uma barca espetacular, com ar-condicionado, restaurantes, lanchonetes, expressos e cappuccinos, Duty Free (sim, pois se atravessa o rio entre a Argentina e o Uruguai), comissárias de bordo, marinheiros e, como se não bastasse, Nintendo Wii para as crianças brincarem. Sessenta minutos era pouco ali dentro.
E o Uruguai não chega nem perto do que o Rio foi, do que o Rio é. E por um momento, eu senti vontade de que Paquetá fosse algo semelhante a Colônia, uma cereja do nosso bolo.
Enfim. Não é.
Jorge Roberto teve um ato de coragem, esse de escrever sobre a Paquetá que se perdeu, silenciosamente, debaixo da lua, sobre a Paquetá-Atlântida que afundou na Baía. Para lá, se voltam apenas olhares de loucos investidores, seduzidos pela oportunidade de comprar um passado glamouroso por alguns trocos, ou dos desprovidos de tudo, que encontram na barca uma fuga de sua parca existência, uma refresco longe de seus conjugados por alguns reais, e levam chope, frango e sanduíche para aumentar o gasto dos paquetaenses e o trabalho de quem despolui a baía.
Digo mais, não só a ilha se perde aos poucos.
Tristemente, o Rio de Janeiro perde, os cariocas perdem, os turistas perdem e a tristeza impera enquanto retorno naquela barca-suplício, de cabeça baixa ante as minhas pequenas filhas que dormem e suam, desfeitas pela quentura. Estavam de biquíni, mas não puderam se refrescar. Perguntaram o motivo, e eu lhes respondi ríspida, sentindo um amargo travando a garganta: '- A água está podre, não vê?', e retornei ao silêncio. De cabeça baixa ante os transatlânticos aportados no Píer Mauá, enquanto eu atracava em madeirames esbranquiçados e partidos, em estruturas metálicas amassadas e descascadas. Rasa d'água, admirando o espetáculo geográfico do Rio de Janeiro no horizonte, enquanto os aviões desciam em rasante ao Santos Dumont. Eu teria chorado, mas quando a tragédia é muita, chorar perde o sentido.
Depois de ler 'Luas de Paquetá', com a suavidade de seus registros, como o é o 'Cemitério dos Pássaros' ou a lenda da Maria Gorda, baobá que nasceu entre mistérios e crendices, fico como que mareada e sinto um estupor, uma vontade triste de chegar a ver Paquetá novamente como Jorge a descreveu, entre sóis e luas, entre brilhos e reflexos do que o povo do Rio pode vir a se tornar. Ou simplesmente voltar a ser.