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- A primeira ciranda. André di Bernardi Batista Mendes, in Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, sábado, 21.02.2009.
"A primeira ciranda
- Com sensibilidade e vigor literário, a carioca Paula Cajaty faz boa estreia com o livro de poemas Afrodite in verso.
O processo é lento, é quase sempre doloroso e esse caminho é cheio de armadilhas. Mas uma coisa tenho como certa, é impossível fugir de si mesmo. Um poeta não deve - e nunca conseguiria, mesmo que tentasse - fugir de seus tormentos, das suas palavras que insistem, de suas asas, de seu coração pelado. A poeta Paula Cajaty, felizmente, não fugiu desta regra quase universal: 'quando um pássaro quer voar/ele não testa não,/é na marra,/tem que acertar/de qualquer jeito/tem que se jogar/de lá de cima'.
Esta boa poeta acaba de lançar, pela Editora 7 letras, Afrodite in verso, seu livro de estreia. Como quem vai se livrando de um vestuário desnecessário, Paula vai, com seus textos, com sua verve, desnudando-se, aos poucos, para no fim das contas revelar-se, íntegra, pronta para o embate poético. Paula mostra-se, às vezes romântica, sempre solitária, quase sempre utópica, buscando 'pontos de contato entre extremos através da própria palavra, através de uma dicção poética abrangente, marcante, cheia de altos e baixos. Coisas que só a maturidade traz.
É que Paula aprendeu, arranjou um jeito de permanecer inteira, mesmo quando se perde, 'atrasada de si mesma', sem exigir mais do que o necessário para compor o seu ambiente interno, para organizar os seus parâmetros, as suas perdas e as suas escolhas. Paula aprendeu, na lida, no que existe de luz e sombra no dia-a-dia, com os espinhos das curvas, a se resguardar, 'sendo menina/que escreve tristezas/e escuta o som de tudo'.
A escritora sabe, como ninguém, que perder às vezes pode ser extremamente bom e produtivo. Pelo menos funcionou para sua poesia. Não é fácil achar/conviver com aqueles 'pequenos tesouros roubados nos galhos da infância'. Não existe complacência nos versos de Afrodite. Paula parece que busca a síntese, a medida exata do sentimento que cabe justo em palavras escolhidas a dedo, de forma contundente. Brincando numa ciranda de afetos e tropeços, Paula costura seu tecido poético valendo-se, antes de tudo, de uma extrema sensibilidade, marcada por 'um aprendizado de desilusões'. Paula escreve para si, como aquela adolescente que decora com rosas o seu diário de menina. E isto, no caso, não é bom, mas também não é ruim, quando o que se escreve, quando o conteúdo desse
'querido diário' transcende o mero desabafo, quando o texto tem a ver com a boa poesia.
Afrodite, a deusa do amor. Paula captou muito de suas delícias. Suas seduções. Mas, esperta, não deixou de perceber a contramão, os espinhos, os cardos, as ladeiras dessa estrada sinuosa. O amor, isso Paula sente com profundo lirismo, pode descambar de forma assustadora. Com sua poesia, Paula aceita o adverso,
os avessos (in versos) que se escondem no mais florido campo de margaridas perfumadas, no mais insuspeito jardim.
Poetas guardam carinhos e distribuem beijos. Paula mostra que gosta de pitangas, de marias-sem-vergonha e gosta imensamente da noite aberta/liberta. A moça gosta de galanteios, e gosta de forma decisiva do lúbrico. O sensual serve de trampolim para ótimos poemas: 'era óbvio, estampado na cara/que ela se
rebelava pra testar limite/que ela era assim malcriada/só pra apanhar, de leve/e sentir a rédea firme no cabelo/que ela era orgulhosa e tenaz/mas bem gostava de dar/seu braço a torcer/por trás'.
Paula esperou o momento certo, arriscou corajosamente, burilou ao longo dos anos o seu texto, escreveu, reescreveu, guardou, jogou fora o que tinha que ser jogado fora, aproveitou o sumo, rasgou o que tinha que rasgar, e encontrou boas doses de cadência e vigor. Paula Cajaty não fugiu de si mesma e, com Afrodite in verso, nos 'convida para o fogo'. Agora, com este seu primeiro rebento literário ela pode - e deve - colher, compartilhando com seus leitores, os bons e prazerosos frutos de sua boa poesia."
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