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Contos
"Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus aposentos sem direito, que se serve do serviço do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário do seu trabalho." Jeremias 22.13
Ele bate no peito, jura que o crime passa ao largo de sua porta. Compra com dificuldade, mas compra original. Mais que tudo, desvia dos camelôs que o interpelam com seus produtos expostos no chão, no plástico amarrado feito pipa para ajudar a correr da polícia. Como se passasse pelas portas do inferno e sentisse o calor das labaredas, e vira a cara.
Um pai de família, classe média. Nunca precisou roubar ninguém. Sua honra era o maior valor, o bridão que soava ao proclamar seu nome, a certeza do mea culpa bem feito a hora da missa.
O computador da família era todo original, comprado nas Casas Bahia. Se não dava para parcelar a despesa com o antivírus, comprava no cartão do banco e parcelava com juros rotativos. Mas não macularia suas convicções. Até que.
Até que lembrou-se de um show raro do Marvin Gaye. 1976. A música que a mãe escutava e, por vezes, o emocionava ao tocar de sopetão no rádio, Goodtimes 98, com uma das mais lindas traduções.
Flertando no email funcional, confessou à colega de trabalho que era sua música preferida, 'I want you', e soube dela que existia aquela música na internet, no Youtube.
No Youtube? ele gelou. Ouviria de novo a música da sua mãe, justo a que ela costumava ouvir na fita cassete. O primeiro presente que ele pôde lhe dar sem pedir dinheiro ao pai. A primeira fita cassete que ele gravou do rádio. Goodtimes.
Entrou lá, youtube ponto com, e pesquisou marvin gay (assim mesmo, sem o 'e') e a pesquisa lhe retornou preciosos resultados, resultados que foram minuciosamente analisados enquanto quase tremia de saudade naquele relembrar sem fim.
Encontrou, com um pouco mais dificuldade, o Rick Astley, a primeira música que dançou com uma menina no play do seu décimo-quarto aniversário.
E então, insatisfeito com a parcialidade dos resultados, jogou os nomes anotados e salvos num arquivo txt no desktop, direto na internet, na caixa de pesquisa do Google.
Rapidshare.
Era só apertar um botão, que levava a outro site, e a outro botão, sucessivamente, até ver uma barra de rolagem. O arquivo chegava zipado, mas isso ele aprendera a fazer num treinamento de informática fornecido pelo trabalho.
Winzip. Windows Media Player.
E lá estava o show inteiro do Marvin Gaye louvando a Deus, 'Ain't no mountain high'. Faltava a tradução, mas já sabia de cor o que a música significava, e então de olhos fechados cantava solto, junto com o Marvin, no inglês que saía. E isso era tão ele, esse atravessar das montanhas da vida, essa subida dificultosa, quase intransponível.
No dia seguinte, fingiu que não notou a estripulia da noite. Chegou no trabalho abafando, contando do show raro e antigo para seus colegas de mesma idade. A glória de ter o que todos queriam. O que não havia a vender.
E o repouso do lar agora se destinava a varrer suas próprias reminiscências empoeiradas, a reconquistar a juventude perdida e ao saudosismo das músicas que tinham verso, que tinham conteúdo, que, como ele, tinham história para contar.
Os vinis foram jogados fora, eram os anos 90, a vitrola não tocava mais e já estava difícil encontrar agulhas. Imprestáveis, os discos ficaram no chão da rua, encostados no poste da calçada (não teve coragem de jogar no saco preto do lixo), e o espaço foi preenchido por um novo tempo de cds e dvds, por aqueles aparelhos prateadamente slim, mais e mais diminutos de teclas eletrônicas e delicadas, que quase não ocupavam seu apartamento de recém-casado.
Agora, quem queria saber de anos 80? Quem queria ouvir o CD do New Kids on the Block e ensaiar suas coreografias na sala? Ele se rodeava de novo dos seus antigos amores, Queen, Abba, BeeGees, Donna Summer.
Rapidshare. Winzip. Winamp.
Uns breves meses de pouca cama e muito download foram suficientes para que se esgotassem os mananciais do passado. Foi conversando com seus novos amigos, amantes da boa música e de shows inesquecíveis, que ele descobriu vários lançamentos que sequer chegavam ao Brasil.
- Essas gravadoras...
O show do Jamiroquai em Verona, o show beneficente para Montserrat, para as pobres vítimas dos furacões, as músicas alternativas, o lounge, o tango eletrônico do Gotan Project, porque nada disso se encontraria nas lojas, e também nem se dava mais ao trabalho de procurar.
O inglês agora era aprendido direto, sem cursos e professores, no site da Amazon e no tradutor do googletranslator. A cota de download estourava, a goela da banda não era larga o suficiente para chupar tudo.
Mas ainda batia no peito, convicto. E buscava justificativas para comer a hóstia. Seus atos eram todos legítimos, afinal, o preço era absurdo, todos sabiam disso.
As gravadoras eram leoninas e sonegadoras, os artistas não ganhavam nada, sobrevivendo da venda de ingressos em shows. E, ainda por cima, como bem frisava, seu uso era doméstico, não-comercial, no máximo umas cópias do rei Roberto Carlos para a sogra, um soft jazz para o chefe, 'Hannah Montana' para usar na festa da filha recém-nascida. Tudo grátis.
- Pecado é alimentar essa indústria do mal. Por que eles não baixam os preços?
No seu afã - e mais novo hobby - de montar uma audio-mídia-dvd-teca privada-particular que contivesse toda a produção fonográfica mundial, urbi et orbi, desde Kraftwerk até A. R. Rahman, transferia toda a culpa para os outros.
- Pirata é quem vende.
Ou, sua maior pérola, desenvolvida depois de muita reflexão sobre os últimos anos em que economizara uma pequena fortuna para montar a estante completa de tudo:
- Acho muito válido ter acesso aos bens culturais disponíveis à população mundial. Se o Paulo Coelho está distribuindo o arquivo de seus livros e o John Mayer se divulga com vídeos gratuitos no Youtube, eu dou valor.
O fato é que ainda não conseguia sair do armário. Ou, aliás, do monitor. E retrucava violento, quando alguém arriscava dizer que a farra um dia poderia acabar.
Nem que os policiais batessem em sua porta. Nem que lhe vasculhassem os mp3's, avi's, ipods, pendrives, notebooks e celulares com toques baixados. Polícia é para pedófilo, repetia, organizando
no álbum de couro os papelotes de sua última compra '3 por 10 real'. O vício era uma mancha preta
que se alastrava pela mão direita, a do mouse, até engolir o corpo todo naquela mácula.
- E Deus lá está preocupado com isso? Pecado é matar.
Baixava filmes, músicas, livros, programas, jogos, monografias, tudo o que se houvesse de baixar. E se não baixava, comprava, que dava menos trabalho, chupava menos a banda, dava menos vírus e ainda tinha a garantia de troca do dono da banca, que tinha cartão de visita e máquina Visa.
Apesar de tanto, continuava enrustido, cada vez mais desavergonhadamente enrustido, levantando bandeiras sobre a abolição do direito autoral em mesa de bar, contando, com galhofa, de quando comprou - depois de tantos anos e para dar de presente, claro - o CD gospel com um adesivo vibrante estampado: 'Pirataria de cd é crime e é pecado'.
- Pirata, eu? Pirata é o Jack Sparrow. Agora... tragam-me o horizonte.
