Tweet me!
Contos
O casamento foi por interesse. Preto no branco. Cartas na mesa, mas com doçura.
Conheciam-se do café-da-manhã na confeitaria. Gilberto, 75 anos, sabia que não lhe restava muito além de remédios e exames. Juçara, 48, já estava fora dos sites de relacionamento há meses, por absoluta ausência de candidatos ao seu perfil. Era a garçonete da loja.
De fato, para ele não havia necessidade de que fosse enfermeira: no mínimo, precisava de higiene e polidez para cuidar da casa, confiança para fiscalizar os remédios, boa-vontade para acompanhá-lo e que tivesse um corpo ainda firme para as horas vagas.
Logo de início, era 'querido' pra cá, 'querida' pra lá, uma gentileza de fazer gosto. Na rua, era tanto respeito que os desatentos até imaginavam se tratar de pai e filha.
O primeiro ano se passou, Gilberto era todo viço e saúde. Velho, sim, mas ainda bem apanhado. O peito empertigado, como nos tempos de militar. Caminhava pela manhã na orla, seguia para a aula de tai chi chuan com o grupo da dança. Antes de entrar na água, o olhar no horizonte, o sinal da cruz, o mergulho na água do mar e ele estava pronto para aproveitar a vida, a bênção de mais um dia.
Com Juçara as coisas foram se modificando. Depois que abandonou o balcão da confeitaria, o peso do tempo passou a ser cada vez mais denso, mais cruel. Atravessar um dia e depois outro, e ainda outros tantos naquelas obrigações domésticas que se multiplicavam de modo assombroso: a comida meticulosamente preparada; a planilha de remédios e injeções a ser observada e cumprida com rigor. Gilberto queria tudo limpo e impecável, feito num quartel. Suas doenças não admitiam flexibilidades.
Ela ainda o tratava bem, mesmo após dois anos de casados. Entretanto, a dedicação diminuíra visivelmente. Pudera. Não imaginava que ele seria ainda tão ativo, tão forte. Às tardes, vez por outra, ele exigia dela: tira a roupa, agora senta aqui no meu colo, deixa eu ver você. E mexia no corpo dela com uma luxúria que dava repulsa.
Cinco anos desde que Juçara saíra da quitinete do Leme e às vezes se pegava pensando em voltar para lá, voltar ao trabalho de salário-mínimo. Chorava escondida, de raiva. Ainda daria para voltar atrás? Com 52 anos, era inútil perder-se em divagações: não havia como deixar tantos benefícios nas suas condições, ele logo morreria e a pensão era de general, com direito ao Hospital do Exército.
Gilberto nem dava por si. Notou que se comprazia em vê-la relutar com a coisa, com seus pedidos, suas brincadeiras obscenas, gostava de impôr sua vontade. Ora, o acerto entre os dois foi claro e ele tinha direito à contrapartida. O trato. Não perguntou do passado, da idade, dos atributos. Prometeu pensão, benefícios, o apartamento e, quando ela largou a confeitaria, indenizava mensalmente o salário. A segurança. Assim que ele morresse, tudo seria dela. Da mesada para a pensão integral. Estaria garantida para o resto da vida, ele repetia a frase, várias vezes, reafirmando o excelente negócio. E exigia tratamento à altura da sua benevolência.
Dia após dia, o exercício, a caminhada, o tai chi, o olhar para o horizonte, o pedido de mais uma bênção, o mergulho no mar. Ano após ano, ouvir as mesmas orientações de que tudo deveria ser fresco, descer ao hortifruti, voltar à cozinha, descascar e picar os legumes, ferver a sopa enquanto tomasse banho. Tudo igual. Ele chegaria invariavelmente às 12h30. Tomaria a sopa e talvez dormisse, ou talvez brincasse daquelas suas brincadeiras estúpidas com ela, na penumbra. Ela torcia para que dormisse. Até para que morresse, Deus perdoe.
Sete anos de casamento. Gilberto feliz e disposto para a vida. Mais controlador. Juçara mais perua. Mais azeda. Às vezes de fato morria alguém conhecido e ela mal disfarçava o interesse ávido na história: “Morreu? Pena... De quê?”. Esperava que alguém dissesse as palavras mágicas – diabetes, hipertensão. Acontece que eram sempre outras as doenças que matavam.
“Oitenta e cinco anos e ele ainda controla o cartão de crédito. Imagina isso? Aquele velho sovina. Todo corado de sol, o pão-duro”, Juçara comentava com as manicures, com as atendentes do mercado e da confeitaria. Com ele, já se perdera toda a tolerância, toda a caridade. Ela não tolerava mais. “Tira a roupa. Tira tudo, eu quero te ver. Agora vem cá”. Envelhecendo junto com aquele velho viçoso. As saliências dele, insuportáveis. Iria com ele até o final. Mas o final não chegava nunca. Tinha noites em que acordava suada, zonza, sonhava que morria e seu espírito olhava o velho, vivinho, bem velho e encarquilhado, rindo desabrido de tudo.
Quanto maior a impaciência dela, mais longe ele ia. Mais abusado. Mais grosso. Não respeitava seus quase 60 anos. Ela quase idosa, passando por aquilo. E o pior é que não contava com mais ninguém, só com aquele velho.
Juçara tomou uma decisão definitiva quando Gilberto passou dos limites e exibiu uns brinquedos que trouxe da rua, da loja de saliência que abriu na galeria. Usou aquilo nela, a tarde toda, fez com que suportasse cada infâmia. Ele ameaçou com o advogado. O divórcio em cartório sai no mesmo dia, ele repetia. Invento coisas na delegacia do idoso, dizia, lascivo. Falava isso enquanto a masturbava.
No dia seguinte mesmo, saiu cedo, nem pôs o café-da-manhã. A caminho do hortifruti, comprou um veneno de rato. Pronto. Mata e seca. No camelô. Deixou na despensa, misturou na Maisena que serviria para o mingau da noite, ela o mataria antes que ele a enlouquecesse. Naquele dia ficou mais silenciosa. Precisava pensar como explicaria o envenenamento. Diria que ele pegou a caixa errada. Não, melhor, diria que ele estava gagá, variando da idéia. Ou que quis se matar.
Gilberto, indignado, caminhava sem parar de pensar, todo dia. Naquele, em particular, estava irritado ao extremo com a audácia dela. Sair sem pôr o café-da-manhã. Quem ela pensa que é? Só quer o meu dinheiro, a vaca. Era boa pra mim, mas agora... Só pede, pede, pede. O dinheiro não basta. Não faz mais nada direito, quer mandar em mim. Grossa. Ladra. Rouba até os trocados na minha bermuda. Faz uma sopa horrível, gordurosa, perde a hora dos remédios. Quer que eu morra, a vadia. Eu já notei o jeito sorrateiro. Me oferecendo azeite pra entupir as artérias. E se recusa a ir ao baile. Se tranca no banheiro. Se recusa a me dar um pouco de prazer nessa vida. Nesse pouco que me resta. A vadia vai ver. Acha que eu vou morrer, mas ela morre comigo.
Ela não ficou em casa à tarde. Saiu antes das 12h30. Deixou a sopa feita e um recado seco: fui ao médico. Que médico? Médico nenhum, ele pensava, bicho vai é ao veterinário. Teve gana de meter uma faca nela, no pescoço dela, pensou em obrigá-la a fazer coisas, de faca na garganta. Riu com a idéia. Pegou uma das facas cegas da cozinha e guardou debaixo do travesseiro. Esperaria a noite. Ela não perde por esperar. Quer que eu morra? Ela morre junto.
Assim que ela chegou, ele na poltrona, a novela das sete passava na TV. “Oi, bem. Fiz os exames logo após a consulta. Aí demorei.” Ele nem respondeu. “Vou fazer já seu mingau.” Ela estranhou o silêncio, mas não se arriscou a dizer mais nada. Cozinhou o mingau do chumbinho, pôs umas pitadas de canela para disfarçar a cor. Mata e seca. De hoje não passa.
“O mingau está na mesa. Vou tomar meu banho.” Ele, silencioso, na poltrona. Juçara espiou a sala: a cabeça de Gilberto acomodada no espaldar de um jeito estranho, pendia levemente para frente. Ela foi chegando mais perto, com o pescoço espichado.
“Rá, o velho morreu!” Os olhos abertos, a boca aberta, não havia dúvida. Imediatamente, levou o prato de mingau e a panela para o banheiro. Pôs tudo no sanitário e deu descarga. “Rá, o velho morreu! Nem acredito.” Telefonou, na seqüência, para o serviço de Auxílio-Funeral. Eles cuidariam de tudo em dois dias. Enterro amanhã à tarde. “Rá!” Juçara sentia um alvoroço no peito. Muitas providências: o seguro de vida, a habilitação na pensão por morte. Nem dormiu. Oh, felicidade suprema, Deus olhara por ela. Os olhos fundos da noite em claro. Imaginariam sua dor. O vestido usado nos enterros. A renda para a cabeça, os óculos pretos. “Rá! Só mais um dia, e minha sina acaba.”
O Auxílio-Funeral tirou o corpo do apartamento, tratou de tudo. Aneurisma. Morte instantânea, indolor. Morreu em paz, eles disseram. Marcaram a hora em que ela desceria do apartamento e seguiria no carro fúnebre, até o Cemitério São João Batista. O mausoléu da família era lá. Gilberto só deixara sobrinhos. Era estéril.
No dia seguinte, Juçara entrou no carro, à hora marcada. Fingida, soluçou duas ou três vezes e depois perguntou a que horas terminaria o enterro. Quieta, pensava em ir ao shopping, depois jantaria no restaurante mais esnobe da cidade. Decidida: chega de sopa. Enquanto isso, segurava um terço, contava as horas nas contas pretas. O motorista, discreto, calculava que ela quisesse se recolher, na saudade, no nojo, na solidão. Foi então que ela falou, pausada, controlada, sem motivo, estilhaçando o silêncio mortal no interior do carro: “Ele me odiava. Queria me matar. Não queria que eu recebesse a herança. Descobri tudo. Achei uma faca debaixo do travesseiro.”
O motorista olhou para ela, estupefato, distraiu-se por um momento tentando divisar a expressão de seu rosto por trás da renda negra, e freou o carro no cruzamento. Foi o suficiente para que um ônibus o acertasse em cheio, pela traseira. Gilberto, junto com o caixão, foi lançado à frente, atingindo a nuca de Juçara. Morte indolor, instantânea, eles disseram. Foi para junto de seu amor.

(p.s.: conto de ficção - qualquer semelhança, é mera coincidência)
Polícia 10/11/2008 – 12:28
Mulher morre ao ser atingida pelo caixão do marido
Agência Estado
Uma mulher de 67 anos morreu após ser atingida pelo caixão onde estava seu marido, na madrugada de hoje, em Tapes, no Rio Grande do Sul. Segundo a Polícia Rodoviária Estadual, Marciana da Silva Barcelos estava no banco ao lado do motorista no veículo da funerária, que transportava a urna de Tapes, onde o casal morava seguindo para Alvorada, onde o marido seria enterrado.
Um veículo de passeio colidiu na traseira do carro da funerária, na Rodovia RS-717, na região de Tapes, deslocando o caixão para frente, que acabou atingindo a vítima. Ainda não há informação se a morte ocorreu no local ou se ela chegou a ser levada a um hospital.


























