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Contos

Vinte anos que não se viam, depois que brigaram feio e Maurinho não apareceu mais na quadra do campo baldio. Image

Aquele lote vazio escondido por trás do quarteirão de prédios era a nesga de verde onde aqueles dez garotos se reuniam nas tardes mornas das férias, onde aqueles garotos aprendiam a ser homens. Não tinha grama cortada rente, mas era campinho mesmo assim, de terra e musgo, na vontade deles todos.

Quem inaugurou o campo foi Marcão, que fugia dos livros para jogar o dia inteiro. Só mesmo sua avó Dilma conseguia interromper o futebol daquele menino. Foi ele quem primeiro trouxe os batentes de madeira e os pregou do jeito que pôde, marcando dois gols.

As faixas da área foram pintadas com a cal que o Maurinho trouxe da loja de tintas de Dona Lídia, sua tia-avó.

Quando não estavam treinando embaixadinhas, Marcão e Maurinho ficavam no mesmo time, apesar dos resmungos dos rivais. Marcão era atacante e Maurinho armava os lances para o gol certeiro e a vitória invariável. O abraço era suado, iluminado, sempre a sensação de que juntos ganhariam o mundo com a bola.

Aconteceu no ano em que fizeram treze anos. Uma molecagem, como dizia vó Dilma, mas depois do lendário desentendimento nunca mais se encontrariam em campo.

Furioso com a bola mal passada e a primeira derrota para o time adversário em anos de reinado no campinho, Marcão não soube perder. Exagerou e, no fogo do suor, dos hormônios que já lhe davam certas audácias, repudiou o erro: - Sabe porque a gente perdeu? Sabe? Sabe? É que você tem inveja de mim, seu merda. E deu as costas, com ódio, varejando a bola no chão.

Um passe errado e o time inteiro ouviu o tilintar da amizade partida, espatifada no chão batido de barro e mato, junto da bola rolando devagar. A solenidade da voz cheia e clara, vibrada com ódio e desprezo brandindo sobre o silêncio covarde e inerte dos outros nove.

Maurinho ainda ficou um tempo parado ali, como que suspenso, os olhos marejando perdidos, sem rumo. Não sentia mais nada além do seu joelho direito que doía, latejando como se explodisse, no mesmo ritmo do peito e da cabeça toda. Não ouvia mais nada além do eco dos gritos de Marcão. Do atacante. Do melhor jogador do time. Saiu dali humilhado e manco. Desolado. Nunca mais voltaria ali, não para o vexame, para a desonra de ter que olhar novamente nos olhos daquele a quem admirava tanto, do irmão que sua mãe não lhe dera.

A partir de então, ele se trancou no estudo. Foi ser o Doutor Mauro Finnegan, médico ortopedista e preparador físico especializado em práticas desportivas: ótimos clientes, os clubes, e a certeza do trabalho infindo com os atletas.
Marcão sumiu de vez do bairro quando completou dezoito anos. Deixou o colégio e vó Dilma para trás. No início foi jogar na Irlanda como as meninas do bairro contavam, mas depois se perdeu nos cantos do mundo. Sem estudo, como queria: bola o dia inteiro, namoradas e dinheiro a balde.

Numa coincidência assustadora e milimétrica, se encontrariam aos 32 anos, no exato mês em que brigaram, há exatos vinte anos, num programa de entrevistas onde o assunto era a importância da supervisão ortopédica no preparo do atleta.

Alguma ampulheta misteriosa contou o tempo dos dois, só podia.

Marcão havia se recuperado de uma lesão na perna com um tratamento de crioterapia australiano e viria jogar no Brasil, de passe comprado. Doutor Mauro trazia a mesma novidade para seu consultório de São Paulo. A coordenação do programa quis os depoimentos do médico e do jogador, enquanto noticiava os avanços científicos da medicina e sua importância no futebol brasileiro.

A princípio, sequer repararam a escalação da entrevista, antes de entrarem no auditório da gravação: Doutor Finnegan e Marcos, foi o que constou na divulgação do programa.

Viram-se ali mesmo, ao vivo, em frente às câmeras, lívidos de surpresa e constrangimento, uma falta de sangue a esfriar o corpo num suor gelado, os sentidos aguçados pela tensão. Será que ele me reconheceu?, a pergunta rondava ambos.

Souberam disfarçar o clima quase insuportável, de si mesmos e da platéia de ocasião que batia palmas invariavelmente, e ficaram aliviados que a pesquisa jornalística não tivesse ido além da pauta médica. Só eles dois sabiam da antiga amizade e da ruptura brusca, além de vó Dilma e Dona Lídia, que àquela altura assistiam à entrevista, lá do interior de Minas.

Os dois se mediram um pouco, de soslaio, até sentiram vontade de perguntar alguma coisa, mas estranhamente o assunto faltou, a voz deu um nó cego e saiu apenas um cumprimento grunhido e indecifrável enquanto apertavam as mãos, ainda no set de gravação. Insuportavelmente estranhos.

E se despediram, desse jeito, desviando o olhar e sorrindo sem vontade. Sem saber se a ampulheta misteriosa contaria mais vinte anos para outro encontro. A mágoa esmaecida lá atrás quase nem doía.