Sexo, tempo e poesia

 

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Caminho relutante pela rua Buenos Aires, no centro do Rio de Janeiro, num dia de fevereiro em que o sol cresta a disposição de olhar as vitrines do percurso, os paralelepípedos soltos e as pedras portuguesas mal colocadas obrigam a pisar com cuidado.  Distraída, a bem da verdade, entre pensamentos e os gritos dos ambulantes que tentam vender qualquer coisa, desde aqueles asquerosos trimmers para orelhas e narizes cabeludos, até óculos de sol cujo design imita as grifes parisienses e londrinas mais charmosas.

Por maior que fosse a bagunça, me sentia estranhamente bem andando pelas ruas conhecidas da cidade natal, até que uma mocinha de seus 20 anos, com duas tiras de pano no corpo - uma que semelharia a um mínimo short, outra que seria um bustiê - vira na minha direção e berra a plenos pulmões: '- É você quem tá chamando a chuva, né, viado?' e continua andando a esmo para entregar papeluchos aos passantes. Da outra esquina, com um mega-guarda-chuva colorido, aberto no meio do sol de rachar, grita o destinatário de volta: '- Só assim pra apagar teu fogo, néim!', entre risadas e gracejos.

No meio da conversa pública dos dois, íntimos amigos, me senti na casa deles. Na sala deles. Na intimidade deles. Quem, há cinquenta ou setenta anos atrás, no meio da rua Buenos Aires, ousaria proferir aquelas palavras de baixo calão com tamanha desenvoltura?

Aos poucos fui me dando conta que, no Rio de Janeiro, as coisas se dão pelos reversos. Eu explico.

Contam uns dez ou quinze anos atrás, em plenos anos noventa, havia quem pregasse o trancafiamento absoluto das pessoas em suas casas, em seus carros, em seus escritórios, com a disseminação da violência e o desenvolvimento da tecnologia auxiliando essa tendência de isolamento.

Não é, contudo, o que se vê. Na Barra da Tijuca, talvez tenhamos a exceção que confirme a regra, mas em todos os demais bairros cariocas a previsão catastrófica não se confirmou.

Copacabana é destinatário de todos os shows dos artistas internacionais mais cotados do mundo, das festas mais badaladas da onda gay e isso não se restringe mais ao Réveillon. Ipanema se vê invadida de dezenas de blocos de travestis e peruas de todos os cantos do Rio, a cada Carnaval. Nos demais bairros de menor visibilidade, bares, botequins e restaurantes espraiam toldos, mesas e cadeiras pela calçada afora, resgatando a alma parisiense de cada um de seus moradores e assíduos frequentadores (com a diferença que, aqui, é mais gostoso ficar do lado de fora durante a maior parte do ano).

Pois aqui os camelôs ficam nas calçadas, carros e kombis estacionam nas calçadas, os guardadores trabalham nas calçadas, fumantes nas calçadas, bebida nas calçadas. Na calçada, tudo pode. É a última fronteira, um lugar de trabalho, de relax, de lazer e até de confraternização e exposições afetivas. No espaço privado, contudo, há a limitação física das paredes, há a limitação do som, imposta pelo incômodo da vizinhança, há a limitação financeira – pois com água e luz no preço em que estão, preferível a brisa da rua, a água do mar. A rua ainda oferece mais encantos e o incomodado que se mude, ou fique em casa.

Volto, então, ao início das minhas divagações. Após o almoço, retorno ao trabalho pelo mesmo caminho e eis que encontro a tal menina dos tapa-sexos com o rapaz do guarda-chuva em riste. Se empurrando, se agarrando, entre gritinhos exibidos, ignorando o mundo à volta. Estão na frente da vitrine de uma loja, naquela implicância próxima e comum de quem quer namorar. Suas casas, certamente, não lhes oferecem tanto: o calor, a brisa morna, a amplidão da rua, as amizades, o trabalho intermitente, as pausas de paquera, o galanteio ao seu corpo perfeito, a excitação do provocante piercing no umbigo, a possibilidade de abordar, pedir, oferecer, vender, ganhar. A casa deles não é mais o barraco, ali é apenas o dormitório do camping. A casa deles é o Rio de Janeiro.

 

Fotografia obtida no site http://oglobo.globo.com/fotos/2009/01/29/29_MHB_Rio_camelos.jpg .