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Contos
O ponteiro ultrapassava os 160km/h, mas ela nem reparava no painel.
Olhava apenas adiante, ao longe e distante, divisando o horizonte da estrada. Quase não havia outros carros na rodovia vazia e atapetada de folhas que se desarrumavam com fúria e voltavam ao chão em rodopios suaves com o passar brusco das rodas.
Era o último Carnaval que passaria naquele torpor solitário ao lado dele. Tinham ido à praia, naquela manhã de terça-feira e sequer conseguiram trocar sílabas e palavras. Como de hábito, somente perguntas breves, seguidas de respostas insossas. ‘Quer coco?’, ‘Não, obrigada’; ‘Trouxe protetor?’, ‘Está na bolsa’; ‘Já quer ir?’ ‘É, pode ser’. Juntos há mais de quinze anos. Falaram-se tudo o que se havia para falar. E as palavras se gastaram, se desgastaram, se acabaram, as palavras se foram perdendo dela, se rareando pouco a pouco, talvez o tempo as tivesse levado para nunca mais.
O carro alcançando o pé da serra e ela precisou colocar a música no último volume, algo que preenchesse seu estupor. Queria que o vórtice de sons interrompesse o filme que estacionou em sua lembrança.
Assim que chegaram da praia, depois do banho, ela sentou na cama, indiferente, sem lágrimas. Deitou-se, na rotina do cochilo que sobrevinha ao banho de mar. Encolhida, de lado, fez um esforço para suplantar a própria mudez e falou, brevemente: ‘Eu quero ir embora. Para sempre.’
Ele veio correndo nu do banheiro, atropelando as sandálias do caminho, ainda cheio de espuma na boca. Parou em sua frente, também não podia falar. Ela continuou, serena, fitando o nada. Contou-lhe que dois anos após terem-se juntado, houve algo de incômodo, uma falta que ela não conseguiria explicar. Não soube dizer se foi após as gestações perdidas. Uma vontade de fazer tudo, provar tudo, olhar o que estivesse além de sua sofreguidão. E a cada vez que supria uma dessas vontades, o vazio aumentava, feito um bicho que a comesse pelas entranhas e consumisse sua alegria, sua razão, sugou o brilho que emergia de seu rosto. Tudo fora perdendo o gosto. Contou que não teve coragem de contar a ele da vida dupla, tripla, quádrupla, que levava ao seu lado, e que a foi emudecendo. Durante aqueles anos todos, a cada ausência dele, trepava com quem aparecesse, homens, mulheres, em relações fragmentadas, múltiplas e clandestinas.
Já de boca limpa, ele se sentou ao pé dela, na cama enorme de casal, em cima da cara colcha de seda, dentro do quarto decorado com motivos provençais, naquele lar ideal de qualquer mulher de quarenta anos. Havia escutado tudo, numa das poucas vezes que se dispôs a ouvir. Olhou para a parede coberta de armários planejados e, por um momento, reparou que tudo estava em seu devido lugar, tudo exato, bonito, novo, rico. E nada disso se mostrava suficiente. Nem para ela, nem para ele. Emudeceu também. Tudo era bom demais para dois seres tão imperfeitos e incompletos.
Na rua passava um bloco onde a multidão celebrava, colorida, festejava serpenteando pelas ruas. Celebrando o quê mesmo? Ainda havia algo que se pudesse celebrar? Há muito tempo ela não poderia perceber nada que a permitisse uma alegria assim, franca e simples, feito ciranda de criança.
Ela se disse oprimida. Oprimida e estranha dentro de seu corpo, da casa que ambos montaram, do emprego no qual trabalhava, como se interpretasse o tempo todo algo que não era, e não sobrasse mais nada para si mesma. Sua mudez era apenas um dos reflexos. A perversão era outro. E mais tantos outros reflexos no corpo e no espírito que ela cobrira e escondera por tantos anos, fingindo para si mesma que poderia suportar isso para sempre.
O carro agora trocava de pistas, a força das curvas o empurrava para o lado e ela ziguezagueava subindo a serra de Teresópolis, a tarde caindo recortava sombras e luzes no asfalto. Uma falta de ar no peito, a música berrava de dentro do carro assustando os meninos fantasiados que brincavam na beirinha da estrada.
Levantou-se da cama, da conversa aterradora, seca e breve. Abriu a bolsa de lona e coletou alguns pertences. Na verdade, não queria mais nada daquilo, queria se libertar de tanta roupa, bolsa, sapato, da tanta multidão de coisas que a sufocavam - queria ser livre e só.
Ele permaneceu sentado e não a impediu de sair quando ela disse ‘só vou levar meu carro’.
Não era afeito a escândalos e, além do mais, ele sabia que decisões como aquela não tinham volta. Restava-lhe apenas resignar-se com sua ausência. Na verdade, ela já estava ausente há muito, e ele já tinha reparado, sim, muito embora preferisse não perguntar nada e continuar levando aquela solidão compartilhada. Apenas a presença dela tinha se tornado um alívio de seus medos e carências. Contanto que ela estivesse ali, ainda que diferente e inaudível, tudo estaria em seu lugar.
‘Para onde você vai?' - a voz mal saiu, trôpega e desesperada, quase certa da indefinição da resposta.
‘Não sei’, ela realmente não sabia.
Beijou-o na testa e virou-se rapidamente, antes que a tristeza a puxasse novamente para o lado dele. Antes que a tristeza a deitasse novamente na cama, para que fizessem um sexo mudo, impessoal, morno e vazio, de curar agito do corpo, e fingissem depois que nada acontecia, ainda uma vez mais. E bateu a porta com cuidado.
Ela estava longe de casa, muito longe de tudo aquilo que não era, sequer ouvia as buzinas dos caminhões que cortava na contra-mão da pista. Estranhamente aquela velocidade amansava sua ânsia e lhe trazia paz. Corria para esquecer que esteve imóvel enquanto sua vida desfilava à sua frente.
Estacionou no mirante, antes do pórtico da cidade. Não queria ir à cidade, não, nem gostava dali de modo especial. Quis chegar apenas e exatamente naquele ponto, ao cair da noite, quando ainda se é capaz de ver a planície e suas ondulações verdes e amplas, quando se é capaz de reparar o colorido carnavalesco do poente, entre lilases e púrpuras e laranjas e azuis de todas as matizes, e ver a escuridão engolindo tudo, avançando, tomando posse do mundo, assim como ela mesma se sentia, agora sem máscara, sendo engolida por aquele pano negro de mudez e apatia que a consumia, cada vez mais. Uma beleza melancólica e quase triste, aquele espetáculo da luz que se despede.
Um turista ao lado lhe perguntou as horas, ela estática, os olhos fechados com força, mas não havia mais como pudesse responder. E ele a balançou firme pelo braço.
Delicadamente, ela abriu os olhos.


























