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Contos

O melhor da eleição foi o relato dos meus avós frente a frente com a urna.
O relato de um branco inédito.
Os números que se misturavam, e o remorso de não terem preparado a cola batendo feito um martelo.
Acharam que iam lembrar de cabeça.
Mas a cabeça não dizia nada, só lembrava de paródias e charges.
A fila com gente de cara amarrada, encostada nas pilastras, nas paredes, onde desse... Gente encostada.
A vontade de perguntar para alguém: qual era mesmo o número do fulano? Qual era o nome do fulano? Aquele que... ele fez o quê, mesmo? Era da Câmara, federal ou estadual?
Mas não dava para perguntar.
Um suor no alto da testa.
Ao longe o vento lá fora rodopiava santinhos.
Ai, se tivesse pego um no chão, pelo menos teria algum número.
A presidente de mesa com cara de Dilma; a secretária com cara de Erenice.
Duas gordas suspeitas e vigiavam os celulares, que não poderiam ser usados para perguntar o nome do fulano.
Se perguntassem alguma coisa, elas latiriam.
Enfim, apertaram um número qualquer.
E voilá, era outro fulano! ou era a foto de uma mulher? Esqueceram os óculos.
Confirmaram assim mesmo. Pi-ru-lí, pi-ru-lí, a máquina apitava mandando ir embora.
Saíram às ruas, respiraram.
Santinhos voavam, rodopiando, confetes ao léu.
A festa da democracia.


























