A editora 7Letras lançou, em 2008, Afrodite em verso, primeiro livro da carioca Paula Cajaty. Depois de sua primeira ciranda, esta poeta chega com Sexo, tempo e poesia. E o livro traz boas notícias. A literatura e poesia de Paula continua intensa, talvez melhor, mais madura, cheia de cores fortes. É que Paula Cajaty parece que gosta de repetências, pois aceita sempre o “mais uma vez”, o que não deixa de ser promissor, pelo menos em se tratando de sexo. E de poesia.
Esta boa poeta, com seu segundo livro, trata suas palavras como se estivesse em lua de mel. Lúbrica, fecunda, desregrada, veloz, não diria insaciável, ela busca e vai de encontro ao outro (o leitor?), buscando a alegria do encanto e do encontro. Às vezes, é preciso expatriar, jogar no mundo palavras, versos e poesia. Pois chega, pois nasce em bom momento e na hora certa Sexo, tempo e poesia.
Não pode ser fraca uma poesia, um tipo de literatura que surge, que é feita de “imagens de seu próprio desatino”. Paula encontra estas fagulhas e repassa, generosa, “debruçada nas beiras”, seus desalinhos, suas estiagens, coisa de poeta, troço de poesia.
Paula pisca o olho, flerta, e convida: “hipnotizada na brancura da tela/ tremida no grito mudo/ ela, a noite,/ goza no claro.” Toda poesia, claro, é feita de palavras, mas é o sentimento seu mais interessante combustível/complemento. Paula sabe que sua poesia é feita, “sobretudo, de amores.” O simples amor, desatinado, que rege, governa e desorienta.
Paula ensina que toda boa poesia é feita da plumagem dos pássaros. A poeta, nesse caso, desaprende para beijar o verbo/verso, deslembra para melhor sorrir, para misturar suas histórias. Paula, assim, “desamarra mágoas”, “deslaça suavidades”, começa sempre de um zero redondo e casto, quase como se fosse, quase como se pudesse voar.
Sobra delicadeza na poesia desta jovem carioca, quando ela percebe o poder da memória. “Vivi na mesma rua do rio/ à sombra mansa das acácias.” Paula não toma distância do medo. Paula encara de frente dores e saudades, agruras. Paula aceita, com sabedoria, as cicatrizes, pois sabe que até isso torna-se matéria de sua poesia.
Sobre o tempo, Paula inventa um muito seu “despencar de ponteiros”, e fala de um tempo que cria asas (mais uma vez os pássaros), que se abre, mas que também se fecha, diante dos sustos, diante dos relâmpagos que porventura surgem em tardes capciosas. Do tempo e seus volteios, Paula descobre que existem extremos e longas lonjuras, “a distância daquelas palavras fundas.” Cabe aí, pungente, a dor de manhãs que custam a despontar, cabe aí a intensidade – e a fúria – de tudo que se fecha para melhor, talvez, forjar o mistério e a própria luz necessária.
Do sexo, Paula fala de fissuras, fala de meias de seda, fala de sutilezas. Paula, faminta, come com os olhos, com o corpo, Paula seduz e se deixa seduzir, e fala de entrega, de reencontros e despedidas, e fala de saudades e fala de divertimento. Sexo é perdição e fogo misturados. Paula fala: “não sou nada/ além/ de boca e caos.” Paula descobre que o sexo é feito, sobretudo, de ardências, de doces clarões e amplos mistérios.
Escolhas certas
A poesia amarra tudo isso, tempo/sexo. A poesia junta tudo, liquidifica para melhor saciar uma sede sem fim. Sem pedir licença, a poesia de Paula é feita de justas escolhas, é também corajosa, e tem a medida do seu tempo. Paula transforma turbilhão em letra.
Paula Cajaty, solta, vem aprendendo, com o tempo, o seu ofício de forma exemplar, sistemática. Disciplinada, cheia de fé, cheia de boas querências, atirada, mas com o pé fincado no chão, esta boa poeta busca – ela sabe dos riscos e das delícias – “domar fogo na língua”. Disso surgem palavras que, se não queimam, emocionam. Toda mulher, dizem, possui o tal do sexto sentido. Paula Cajaty é mulher. E atenção: Paula Cajaty também é poeta. A quintessência desse processo dobra em termos de verdade e volúpia.
Carioca nascida em 1975, Paula Cajaty iniciou a carreira no direito. Atualmente, em parceria com sites, blogs, editoras e agências literárias, a autora de Sexo, tempo e poesia produz o boletim Leituras da semana para mais de 4 mil leitores e mantém o site
www.paulacajaty.com, dedicado à literatura e consultoria editorial.
SEXO, TEMPO E POESIA
De Paula Cajaty
Editora 7Letras, 104 páginas, R$ 35